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A Tragédia e o Renascimento do Manchester United

Bem amigos, estes dias vêm sendo muito difíceis para quem ama o futebol, não só pra quem acompanha o desporto, mas quem é pai, filho, marido, irmão, enfim… quem não chorou ao ver depoimentos dos familiares de atletas, dirigentes, jornalistas, trabalhadores que tiveram as vidas ceifadas pela fatalidade do acidente aéreo na madrugada do dia 29 de novembro de 2016. Todos nós esperamos ver a Chapecoense se reerguer desta tragédia, que a equipe volte a decisões importantes no cenário do futebol nacional e internacional, e que os feitos destes guerreiros sejam eternizados na memória de todos. Exemplos de clubes que se reergueram depois de trágicos acidentes aéreos não faltam, e hoje o “Além da Grande Área” vai lhes contar a história de um gigante que ressurgiu das cinzas, o Manchester United. Vamos lá!

CRONOLOGIA DO ACIDENTE

TERÇA-FEIRA, 22 DE OUTUBRO DE 1957

O 4×0 dos Red Devils em cima do Aston Villa, junto com o fato de que na última temporada tinham marcado o maior número de gols e pontos da história, levou a especulações de que o time poderia realizar o feito inédito de ganhar também a FA Cup e a European Cup (Champions League da época).

QUARTA-FEIRA, 4 DE DEZEMBRO DE 1957

O United encara o Dukla Praga, da Tchecoslováquia (país hoje dividido em República Tcheca e Eslováquia), fora de casa na European Cup – perdem esse jogo mas vencem no placar agregado. Com o atraso na volta pra casa, o time quase perde o confronto com o Everton pela Liga Inglesa no sábado seguinte. Com o problema, a direção do United decide fretar um avião para a próxima partida fora de casa, contra o Estrela Vermelha de Belgrado da Iugoslávia (país hoje dividido em Sérvia, Montenegro, Croácia, Bósnia e Herzegovina e Kosovo).

TERCA-FEIRA, 14 DE JANEIRO DE 1958

O United bate o Estrela Vermelha de Belgrado por 2×1 em Old Trafford, em partida válida pelas quartas-de-final.

SEGUNDA-FEIRA, 3 DE FEVEREIRO DE 1958

O elenco do Manchester embarca no voo de Manchester para Belgrado. A rota é arranjada via Munique, tanto na ida quanto na volta, já que uma viagem direta é além dos limites de combustível da aeronave.

Poucas horas depois, eles chegam e encontram uma névoa baixa, pouca visibilidade e neve. As condições estão no mínimo permitido pela British European Airways (a operadora de voo) para os pilotos pousarem. De fato, o tempo é tão ruim que o engenheiro do aeroporto só percebe que o avião aterrissou quando o avião é estacionado perto da plataforma.

QUARTA-FEIRA, 5 DE FEVEREIRO DE 1958

O United empata em 3×3 com o Estrela Vermelha de Belgrado, se classificando para as semifinais da European Cup pelo segundo ano seguido. Após o jogo, um coquetel para os jogadores é realizado na Embaixada Britânica.

QUINTA-FEIRA, 6 DE FEVEREIRO DE 1958

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O elenco do Manchester United e mais cinco pessoas, incluindo a esposa e a filha de um iugoslavo que estava indo para Londres, estava pronto para sair de Belgrado (ainda fazendo sol) e ir para Manchester. A partida é atrasada por uma hora porque o ponta-direita, Johnny Berry, havia perdido seu passaporte.

Pouco depois, o avião parte e faz parada prevista em Munique para reabastecimento, onde o aeroporto estava coberto de névoa, chuva e neve. A parada em Munique requer que o piloto, o capitão James Thain, use o equipamento anti-congelamento nas asas.

No chão, o elenco do Manchester desembarca para tomar ar na construção do terminal, com alguns jogadores aproveitando a oportunidade para brincar na neve.

Após completar os detalhes do desembarque, o grupo retorna para a aeronave, com os capitães parando para inspecionar as asas. Como precaução, o fluído anti-congelamento poderia ter sido colocado nas asas ou ao menos ter limpado a neve que se instalava no avião, mas eles decidiram que era desnecessário devido às circunstâncias.

Às 14h20 no horário local, somente uma hora após a chegada, o avião está pronto para partir. Contudo, um barulho estranho no motor alerta o Capitão Thain e o co-piloto, capitão Kenneth Rayment, fazendo com que abortem a partida.

Os dois decidem tentar de novo, mas a segunda decolagem é abortada pela mesma razão, descrita pelo Capitão Thain, para os passageiros, como um “pequeno problema no motor”, o que faria com que os passageiros retornassem para a área coberta do aeroporto enquanto eles faziam análise.

Todos desembarcam de novo e, no retorno para a sala de espera do desembarque, a estrela Duncan Edwards manda um telegrama para sua mulher: “Todos os voos cancelados. Voando para casa amanhã, Duncan”. Inesperadamente, a chamada para o reembarque é feita e o grupo volta para o avião.

Às 15h05 uma terceira tentativa foi feita, mas o avião não conseguiu ganhar altura e bate na cerca do aeroporto e depois numa casa. Uma asa e parte da cauda da aeronave são arrancadas e a casa pega fogo. Uma árvore estilhaçou o lado do cockpit, enquanto uma parte da fuselagem acertou uma tenda de madeira, fazendo com que um caminhão cheio de combustível, que estava estacionado dentro da tenda, explodisse.

Quando o serviço de emergência chegou, 21 pessoas já estavam mortas, incluindo sete jogadores, oito jornalistas, o agente de viagens que organizou tudo e um torcedor que viajava com o time. Após duas horas, a procura por sobreviventes foi cancelada. Cinco horas depois do acidente, um jornalista alemão viu Kenny Morgans vivo entre os destroços.

Matt Busby sofreu fraturas na costela, perfuração num pulmão e lesões na perna, a condição era tão grave que os médicos que tomavam conta dele lançaram um comunicado bastante simples: “não temos muitas esperanças de que ele sobreviva”.

 

SEXTA-FEIRA, 7 DE FEVEREIRO DE 1958

Corpos levados para o Old Trafford, com uma multidão às ruas para acompanhar

Corpos levados para o Old Trafford, com uma multidão às ruas para acompanhar

Os corpos dos mortos são mandados de volta por avião e passam a noite na academia de Old Trafford antes de serem recolhidos pelas famílias. Milhares de pessoas saem as ruas para acompanhar os funerais, memoriais são erguidos em todo o país e dois minutos de silêncio são respeitados em todas as partidas.

Existia a especulação de que o clube desistiria de tudo, pois não estariam aptos a completar os jogos da temporada ou reconstruir o destroçado elenco.

QUARTA-FEIRA, 19 DE FEVEREIRO DE 1958

 

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As novidades são que Matt Busby recebia as últimas cerimônias pela segunda vez, enquanto Duncan Edwards e o co-piloto Kenneth Rayment pioravam a cada dia.

Mesmo assim, com uma escalação modificada, o United vence o Sheffield Wednesday numa partida emocionante válida pela quinta rodada da FA Cup.

As manchetes dos programas esportivos diziam “United seguirá em frente” e na súmula de jogo havia 11 espaços em branco pra serem preenchidos. Foi então que Busby chamou o assistente, Jimmy Murphy, na cama do hospital e disse “mantenha a bandeira voando”. O United venceria aquele jogo por 3×0.

SEXTA-FEIRA, 21 DE FEVEREIRO DE 1958

Duncan Edwards morre devido aos ferimentos. Uma semana depois, Rayment também sucumbe, elevando a contagem para 23 mortos. Milagrosamente Matt Busby se estabiliza e, conforme a condição melhora, é mandado para o Interlaken, na Suíça, para se recuperar com a mulher, Jean.

SÁBADO, 8 DE MARÇO DE 1958

Uma mensagem do manager ferido é transmitida antes do jogo em casa do United. As notícias do mundo dizem que “as mulheres choravam enquanto a voz de Matt Busby na fita gravada ecoava através de um embalado e silencioso Old Trafford”.

SEXTA-FEIRA, 18 DE ABRIL DE 1958

Matt Busby retorna a Manchester pela primeira vez, 71 dias após o acidente. Ele faz a jornada de volta da Suíça por trens e mares.

SÁBADO, 3 DE MAIO DE 1958

Apesar da devastação naquela temporada, sob a liderança de Jimmy Murphy, o United consegue chegar na final da FA Cup, onde jogam contra o Bolton Wanderers. Murphy também comandou o time nesse jogo, enquanto Matt Busby lentamente vai até o banco de reservas com a ajuda de uma bengala. O time usa camisas com um brasão de uma fênix ressurgindo das cinzas.

Mas apesar de um valente esforço, o jogo é um passo muito avançado pro elenco ainda em recuperação e a derrota por 2×0 acaba ocorrendo.

QUINTA-FEIRA, 8 DE MAIO DE 1958

O United bate o Milan em Old Trafford por 2×1 em partida válida pela semifinal da European Cup.

QUARTA-FEIRA, 14 DE MAIO DE 1958

Milan vence o United por 4×0 no San Siro e avança para a final da European Cup.

A UEFA oferece à FA (Football Association, Federação de futebol Ingles) a oportunidade de o United entrar na competição na temporada seguinte como um tributo aos jogadores e oficiais que perderam as vidas. A FA rejeita a oferta, escolhendo entrar apenas com os campeões, o Wolverhampton Wanderers, como normalmente seria.

No total, 23 pessoas morreram: oito jogadores do United, três funcionários do clube, oito jornalistas, dois membros da tripulação, um torcedor e um agente de viagens.

Foram 21 sobreviventes: quatro membros da tripulação, nove jogadores, o técnico Matt Busby, três jornalistas, uma civil e a filha (salvos pelo goleiro Harry Gregg), Eleanor Miklos (esposa do agente de viagens que faleceu) e um diplomata.

Apesar de ter pouca fama, podemos dizer que o Manchester United só é o que é até hoje por causa de Jimmy Murphy, pois além de assumir temporariamente o lugar de Sir Matt Busby, Jimmy enfrentou a diretoria do clube (que queria o fim do Manchester United), convenceu Bobby Charlton a voltar a jogar, montou um novo time e chegou na final da FA Cup meses após o acidente.

Duncan Edwards, uma das vítimas fatais, era considerado com potencial para ser o melhor jogador inglês de todos os tempos. Bobby Charlton disse em 2008: “Imagine o chute de Rooney, o jogo aéreo Nemanja Vidic, os tackles de Roy Keane e o passe de Paul Scholes, então você teria Edwards”.

Dias após o acidente, torcedores dos mais diversos lugares mostraram solidariedade ao clube. Chegavam em Old Trafford entregando cartas com condolências, dinheiro, “mesadas” enviadas por crianças e ofertas de voluntários para ajudarem a reerguer o clube.

O United só viajou no dia 6 porque os chefes da liga inglesa não queriam que as equipes participassem de competições europeias. Sendo assim, não permitiram que o jogo do dia 8 fosse adiado, forçando a volta da equipe para a Inglaterra o mais cedo possível.

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Em 1968, dez anos após a tragédia, o Manchester United finalmente conquistou a Europa. Com Bobby Charlton como capitão, o time de Matt Busby venceu o Benfica na final por 4×1.

HOMENAGENS NO CLÁSSICO DE MANCHESTER 50 ANOS APÓS O ACIDENTE:

CRONOLOGIA DO ACIDENTE PRODUZIDA PELA BBC INGLESA:

FILME DO MANCHESTER UNITED, TRAILER SOBRE O ACIDENTE AÉREO:

REPORTAGEM DO GLOBO ESPORTE SOBRE O ACIDENTE DA EQUIPE DO MANCHESTER UNITED: