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Por que o Futebol Virou um Negócio da China?

No início de 2016, os clubes chineses registraram os maiores gastos em todos os tempos. A China virou o grande bicho-papão do mercado de inverno no mundo da bola. Hoje, o “Além da Grande Área” vai desvendar um pouco do mistério que ronda essas negociações.

De Empreteiras a Shoppings, o Financiamento do Governo e das Estatais

O Guangzhou Evergrande, atual campeão asiático e penta nacional, possui dois proprietários milionários e uma baita construtora: Evergrande Real Estate Group. A empresa é dona de 60% das ações do clube e é uma das dez maiores construtoras da China. A sócia no Guangzhou é a gigante do comércio virtual Alibaba, empresa capitaneada por Jack Ma, o 29º homem mais rico do planeta, com fortuna estimada pela “Forbes” em cerca de US$ 23,9 bilhões (aproximadamente, R$ 96 bilhões). Para eles, investir milhões de euros em contratações de brasileiros (como já fizeram) ou bancar o salário milionário do campeão mundial Luiz Felipe Scolari, não é problema. Paulinho, Alan e Ricardo Goulart são algumas das estrelas brasileiras que jogam por lá.

E não é só no Guangzhou. Pelo menos a metade dos dezesseis clubes que disputam a primeira divisão tem como fonte financeira empresas que atuam no setor da construção civil.

A proximidade com as empreiteiras não é a única forma de o governo incentivar os investimentos no Campeonato Chinês. O financiamento também acontece diretamente, como no Shandong Luneng.

O Shandong pertence a uma estatal do ramo elétrico, a State Grid Corporation of China, a terceira empresa mais rica do país, com faturamento de US$ 333 bilhões (R$ 1,3 trilhão) em 2014.

O elenco do time conta com dois ex-corintianos, Jucilei e Gil, os atacantes Diego Tardelli e Aloísio (boi bandido) e até mês passado, com o meia argentino Montillo, que assinou com o Botafogo, todos treinados pelo alemão Wolfgang Rolff, que também recebe uma bolada.

Entre os donos de clubes na primeira divisão da China, existem ainda uma montadora de automóveis, a Lifan Group (Chongqinq Lifan), que exporta carros inclusive para o Brasil, uma rede de shopping centers, a Renhe Commercial Holdings Company Limited (Guizhou Renhe), empresas do ramo farmacêutico e até a operadora do porto de Xangai, dona do Shangai SIPG outro milionário que acabou de comprar o meia Oscar do Chelsea por £58 milhões (cerca de R$ 218 milhões).

Governo

O envolvimento das empreiteiras no futebol chinês se aprofundou depois que o governo passou a tratar a modalidade esportiva com mais apreço. O amante do futebol e atual presidente da China, Xi Jinping, tem como meta fazer a China participar de uma Copa do Mundo, em seguida sediá-la e quem sabe conquistá-la.  Entre os projetos do líder chinês, um já está aprovado: a obrigatoriedade do ensino do futebol nas escolas do país.

É bom relembrar que o país asiático é o dono da segunda maior economia do mundo. E o alto investimento dos chineses no futebol era questão de tempo, ainda mais, com a política envolvida.

Mercado de Transferências Caro

Na atual janela de verão, como já citado acima a transferência de Oscar para o Shangai SIPG, é a transferência mundial recorde até então.

Na atual janela de verão, como já citado acima a transferência de Oscar para o Shangai SIPG, é a transferência mundial recorde até então.

Os três jogadores mais caros contratados no mercado de inverno foram negociações envolvendo clubes do país asiático. O volante brasileiro Ramires é a contratação mais cara. Ele trocou o Chelsea, da Inglaterra, pelo Jiangsu Suning por €28 milhões (cerca de R$124,9 milhões). A transferência rendeu mais de R$1 milhão para o Royal, de Barra do Piraí, clube formador do jogador. Já o atacante Elkeson, ex-Botafogo, trocou o Guangzhou Evergrande pelo Shanghai SIPG por €18,5 milhões (cerca de R$82,5 milhões).

Ramires e Elkeson são apenas dois dos muitos brasileiros que estão jogando nas duas principais divisões chinesas. A terceira transferência mais cara envolveu o marfinense Gervinho, o atacante trocou a Roma pelo Hebei China Fortune por €18 milhões (cerca de R$80,3 milhões).

Até na Segundona

Luís Fabiano, Vanderlei Luxemburgo e Jadson (respectivamente, da esquerda para a direita) no Tianjin Quanjian, clube da segunda divisão chinesa

Luís Fabiano, Vanderlei Luxemburgo e Jadson (respectivamente, da esquerda para a direita) no Tianjin Quanjian, clube da segunda divisão chinesa

Das vinte transferências mais caras do mercado de inverno, onze envolvem clubes chineses. E a voracidade do mercado do país não se resume apenas à primeira divisão. A segunda divisão chinesa é a quarta liga que mais investiu nesta janela: foram €47,6 milhões (cerca de R$ 212,3 milhões) em contratações, vindo logo atrás da Série A italiana (que investiu €63,45 milhões, ou R$ R$283,1 milhões) e está na frente de ligas bem mais importantes, como a espanhola e a alemã.

É na Série B que está o Tianjin Quanjian, ex-clube comandado pelo técnico Vanderlei Luxemburgo e que tirou Jadson do Corinthians, Luís Fabiano do São Paulo e Geuvânio, do Santos. O jogador da Vila Belmiro é a 13ª contratação mais cara da janela: €11 milhões (R$ 49 milhões).

Aumento de Investimento Ano Após Ano

Na temporada 2012/2013, a primeira divisão chinesa tinha sido a sétima liga que mais gastou no mercado de inverno, com €39,91 milhões, mas há duas temporadas depois, os chineses só ficavam atrás dos ingleses. Na temporada 2013/2014, a Super Liga Chinesa investiu menos da metade do que a Premier League (€71,27 milhões contra €164,8 milhões). Na temporada seguinte, os números ficaram mais próximos. Enquanto a China investiu €115,90 milhões em contratações, a Inglaterra gastou €158,12 milhões.

Desta vez a China ultrapassou a Inglaterra, ainda que em volume de negócios esteja bem atrás de outras grandes ligas. Ou seja, a China está pagando muito mais por muito menos jogadores.

O alto investimento dos chineses no futebol não deve se restringir apenas à Super Liga do país. De acordo com o jornal As, o grupo que controla o Guangzhou Evergrande pretende comprar clubes da Inglaterra e Estados Unidos. Apesar de os nomes das equipes não terem sido divulgados, a intenção é aproveitar as altas cotas de televisão que os times da Premier League recebem e a projeção internacional, principalmente no mercado asiático.

Segundo a imprensa internacional, houve rumores de que o grupo chinês faria uma parceria com David Beckham nos Estados Unidos. O astro inglês tem a intenção de colocar uma franquia na Major League Soccer. Contudo, não se sabe se o acordo seria para a entrada de um novo clube na principal liga de futebol do país da América do Norte ou se os asiáticos comprariam uma equipe que já esteja em atividade. Com relação aos Estados Unidos, a questão também é vista pelo lado mercadológico. Faz parte da estratégia dos empresários chineses e do governo entrar no país norte-americano. Eles compraram nos últimos anos ações de empresas dos ramos esportivos e de entretenimento.

A entrada de grupos chineses no futebol vem crescendo ao longo dos últimos anos. Recentemente, um fundo do país desembolsou £265 milhões (cerca de R$1,3 bilhão) para comprar 13% das ações do grupo Manchester City, que tem times da Premier League e da Major League Soccer.

O Guangzhou Evergrande gastou rios de dinheiro para se reforçar nesta temporada. A equipe desembolsou mais de €69 milhões (R$276 milhões) em contratações. Só pelo colombiano Jackson Martínez, os chineses pagaram €42 milhões (R$ 167 milhões).

Invasão Chinesa Até em Portugal

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A Ledman, fabricante de lâmpadas LED, anunciou que irá patrocinar a segunda divisão de Portugal. Porém, uma das cláusulas do contrato prevê que dez jogadores e três treinadores-adjuntos chineses sejam incluídos em algumas das 24 equipes que disputam a Série B portuguesa, que passará a se chamar Ledman Proliga a partir da próxima temporada.

Só que estes jogadores não poderão estar em qualquer equipe. Os dez atletas devem ser integrados nos dez clubes do topo do campeonato e com a liga garantindo “uma taxa de utilização dos jogadores” e comprometendo-se a “melhorar o nível dos atletas chineses”.

O acordo de três anos foi assinado em uma cerimônia realizada em Pequim que contou com o presidente da Liga Portuguesa de Futebol, o ex-árbitro Pedro Proença, e o CEO da Ledman, Martin Lee. Os valores do negócio não foram revelados, mas a ideia é valorizar a segunda divisão portuguesa.

A pergunta que surge: quando eles invadirão o Brasil?