No futebol não há quem não goste de uma “história de Davi contra Golias”, histórias de times pequenos que superam os grandes, mas por trás destes feitos há sempre um nome responsável e hoje o “Além da Grande Área” vai lhes contar os feitos de um homem, que em nas próprias palavras “se não foi o melhor treinador, sempre esteve no Top 1”, este homem foi Brian Clough.

BRIAN CLOUGH JOGADOR

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Um goleador nato, com grande destaque na terra da rainha, atacante rápido e matador, chegou a marcar 197 gols com a camisa do Middlesbrough em 213 jogos e pelo Sunderland fez 54 gols em 61 jogos, média que, nos dias atuais, ficaria atrás apenas de Messi e Cristiano Ronaldo.

Porém, em 1962 e aos 27 anos, sofreu uma lesão no joelho em jogo contra o Bury, o que abreviou a carreira, embora tenha jogado até 1964: Clough chocou-se com o goleiro, rompendo todos os ligamentos do joelho. “Quando vi seu joelho, soube que sua carreira tinha acabado, mas disse: não tirem a chuteira dele porque ele tem de voltar ao jogo”, disse na ocasião seu técnico, procurando acalmá-lo. Clough também jogou duas vezes pela seleção inglesa principal, sem marcar.

BRIAN CLOUGH TREINADOR

Embora a brilhante carreira de jogador tinha acabado, ele demonstrou que não iria se abater. Assim que completou trinta anos, Clough foi treinar o pequeno time do Hartlepool, onde começava também a parceria com Peter Taylor, seu fiel escudeiro. Porém, o trabalho de Clough não durou muito no pequeno time, devido ao forte temperamento de Brian e a falta de resultados, acabou dispensado.

DERBY COUNTY

Chegou ao Derby County, clube maior que o antigo, porém pequeno em relação aos demais clubes ingleses. Reestruturou toda a comissão técnica e base, logo na primeira temporada no ano de 1968, faturou a segunda divisão inglesa, colocando o clube de East Midtland na primeira divisão, e em 1972 após disputas acirradas com o Leeds United, Liverpool e Manchester City, a equipe faturou a primeira divisão. Clough ficou conhecido por extrair o máximo de cada jogador, os transformando em grandes atletas também.

Na temporada seguinte, a equipe foi novamente campeã inglesa e semifinalista da Champions League, perdendo para a Juventus na semifinal, muito devido aos desgastes de atletas, devido três dias antes o clube ter realizado um “clássico” perante o rival pessoal de Brian Clough, o Leeds United, comandado por Don Revie, grande treinador e desafeto de Clough.

Devido ao temperamento forte e atritos com a diretoria, Brian acabou demitido do clube.

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PASSAGEM POR BRIGTHON E LEEDS

Depois de sair do Derby, ele foi contratado pelo Brigthon and Hove Albion em 1973, time que estava na terceira divisão e que contava com um alto investimento, mas o trabalho durou seis meses, e então surge o convite do Leeds, que, na época, era o melhor time nacional, porém Brian e jogadores não se entendiam e a passagem pelo clube londrino acabou precocemente, muito devido a falta do auxiliar Peter Taylor.

BRIAN NO NOTTINGHAM FOREST

Depois da saída do Leeds, Clough havia se tornado comentarista de um canal esportivo, recebeu convite para treinar o Nottingham Forest em 1975, clube que se encontrava penando na segundona e com grave crise financeira. Brian mais uma vez ressuscitou um clube, atuando firmemente na direção da equipe a uma ascensão meteórica que começou na temporada seguinte. O time foi promovido à primeira divisão após obter um terceiro lugar na segundona, com um ponto de diferença sobre Bolton Wanderers e Blackpool.

Na temporada posterior, a de 1977/1978, também com um elenco de nomes modestos, cujos únicos astros eram o goleiro da seleção inglesa, Peter Shilton, e Archie Gemmill, que vieram naquela temporada (o escocês, diretamente do rival, Derby), deu ao Nottingham o único título no campeonato inglês, sete pontos à frente do Liverpool. O clube também ganhou a primeira Copa da Liga Inglesa. Clough chegou a ser procurado pelo Derby para voltar ao time, mas recusou.

Na Copa dos Campeões Europeus (atual UEFA Champions League) de 1978/1979, enfrentaram o Liverpool na primeira fase e os reds, recém-bicampeões do torneio, foram eliminados. Paralelamente, ambos também disputavam a liderança do campeonato inglês, que na ocasião, acabou vencida pelo Liverpool, a despeito do Nottingham ter completado no decorrer do torneio uma invencibilidade de 42 jogos que só seria quebrada mais de vinte anos depois, pelo Arsenal. O clube vencia a segunda Copa da Liga.

Na Copa dos Campeões, o Nottingham passou tranquilamente pelos adversários que se seguiram, tornando-se, também, o primeiro clube a vencer uma semifinal do torneio na casa do adversário, o que ocorreu na vitória por 1×0 sobre o Colônia, que conseguira empatar em 3×3 na ida na Inglaterra,  e na final bateram por 1×0 os suecos do Malmö: o gol foi marcado por Trevor Francis, astro do Birmingham City, contratado especialmente para a decisão. Com este título, Brian Clough foi o último treinador inglês a ganhar o torneio. Mesmo Francis não escapara da cerimônia de “batismo” imposta pelo treinador aos novos jogadores do Nottingham, tendo sido forçado a servir chá aos novos colegas durante o intervalo daquela e de algumas partidas seguintes; “Ele punha muito leite no meu. Jogava melhor do que fazia chá”, chegou a contar Clough.

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Brian levava o minúsculo clube a um inacreditável título no mais importante torneio continental de clubes, igualando-o ao tradicional Manchester United, campeão em 1968 e que seria ultrapassado pelo Nottingham em seguida: credenciado a disputar o torneio na temporada seguinte como detentor do título, faturou-o novamente, vencendo na decisão o Hamburgo. Apenas o Milan de Marco van Basten conseguiria ser bicampeão seguido do torneio após o feito do Nottingham, que foi o segundo maior vencedor inglês do torneio até 2008, quando o Manchester United faturou o terceiro título. Na mesma temporada do bicampeonato europeu do Nottingham, o Derby era rebaixado para a segunda divisão. Clough recusaria outro convite para voltar ao antigo clube em 1983.

Os troféus rarearam na década de 1980, vindo apenas um novo bicampeonato na Copa da Liga, em 1989 e 1990. Um título inédito, o da FA Cup, quase veio em 1991, mas foi perdido para o Tottenham Hotspur. Em 1992, o Nottingham foi vice também na Copa da Liga. No ano seguinte, após dezoito temporadas comandando a equipe, Clough decidiu sair. O clube terminou rebaixado na Premier League, que estava em na primeira edição. Chegou a voltar em 1999, mas novo rebaixamento veio em seguida, e outro mais tarde, levando o clube à terceira divisão.

Brian Clough infelizmente já não está entre nós, faleceu no dia 20 de setembro de 2004, mas os feitos dele são eternos no futebol, sendo o único técnico que levou, com medianos jogadores, duas minúsculas equipes inglesas rivais, Derby County e Nottingham Forest, da segunda divisão ao título na elite nacional, sendo o comandante do período áureo dos dois times. No Nottingham, foi ainda mais longe, conquistando com o clube um extraordinário bicampeonato na Copa dos Campeões Europeus.

Outro fator que liga as duas equipes é que ambas nunca se recuperaram totalmente depois que ele as deixou. Em decadência, a disputa maior dos dois clubes tem sido pelo apoio de Clough como torcedor, mesmo anos após a sua morte. Desde 2007, disputam um amistoso anual que leva o seu nome. Seu nome está em estátuas tanto em Derby quanto em Nottingham, distantes apenas 20 quilômetros uma da outra, assim como batiza a estrada que liga as duas cidades. Há uma estátua dele também na cidade natal de Clough, Middlesbrough.

Clough, que detinha de uma personalidade forte, utilizando diversas frases de efeito e polêmicas em ocasiões, demonstrou forte personalidade novamente numa partida contra o Millwall, onde, tentando mostrar que os torcedores rivais não o intimidavam (os torcedores do Millwall na época eram muito conhecidos por seus intimidações aos adversários), parou o ônibus que levava os atletas cerca de 2,5km do estádio do clube, fazendo-os seguir o restante do caminho a pé.

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