BNC-jogos-inenarraveis

Olá a todos, sou Bruno Costa e vocês já me conhecem de outros carnavais, afinal eu escrevo o quadro “Muralhas Lendárias” aqui no blog do Goleiro de Aluguel. Para você que acompanha o “Muralhas Lendárias”, saiba que, mesmo sem novos artigos há duas semanas, o quadro não morreu e esta sexta-feira terá artigo novo! Hoje, dia 20 de março de 2017, eu estreio outra coluna aqui no blog, que vai tratar de lendários jogos do mundo do futebol (não tão diretamente voltada a goleiros) em que traz e detalha partidas históricas, das mais variadas épocas e torneios.

O que significa a palavra “inenarrável”? Então, no antigo programa da MTV, Rockgol, sempre que acontecia um lance tão incrível ao ponto de se perder as palavras, os narradores falavam que o lance era “inenarrável”, ou seja, era impossível de se narrar. Esta nova coluna vai fazer jogos históricos quase impossíveis de se narrarem. O artigo de estreia de hoje é de uma vitória “inenarrável” do Valência sobre o Barcelona, que você confere agora.

Favoritismo? Aonde?!

Barcelona e Real Madri são, sem dúvidas, as grandes potências do futebol espanhol não só nos dias de hoje, como em toda a história hispânica, podemos notar isto facilmente no histórico da La Liga, que já teve 85 edições até o presente momento e em apenas 29 ocasiões, o campeão da La Liga não foi Barcelona e/ou Real Madri (o Real Madri já se sagrou 32 vezes campeão da Liga, enquanto o Barcelona, 24 vezes). Entretanto, sempre tivemos times que incomodaram, lutaram para ser a terceira força da Espanha, no passado, o Valência foi um deles.

Quem se lembra de um Valência que tomou fama e apavorou muito time gigante do futebol nos finais dos anos 90 e começo dos anos 2000? O Valência foi o time que mais deu trabalho para Barcelona e Real Madri neste período, inclusive na Copa Del Rey de 1998/1999, quando eliminaram o Barcelona nas quartas-de-final ao vencer os jogos de ida e volta e o Real Madri nas semifinais, com direito a uma vitória histórica por 6×0 na ida. O Valência se sagraria o campeão na posterior final. E não pararia por aí, o Valência seguiria tomando conta não só do futebol espanhol, como europeu.

Até a temporada 1996/1997, apenas os times campeões nacionais dos países e o atual campeão se classificavam para a UEFA Champions League da temporada seguinte. A partir da temporada 1997/1998, a Champions passou a abranger mais times, as coisas mudaram e assim, mais de um time de um mesmo país poderiam participar do principal torneio de clubes europeu.

CAMINHADA DE BARCELONA E VALÊNCIA ATÉ AS SEMIFINAIS DA CHAMPIONS LEAGUE 1999/2000

BARCELONA: o Barça se classificou para esta edição da UEFA Champions League após se sagrar campeão da Liga Espanhola da temporada anterior, só que o time comandado pelo holandês Loius Van Gaal precisava mostrar muito mais do que as outras temporadas, afinal o Barcelona não conseguia passar da primeira fase de grupos, algo que não condizia com a história e o tamanho do clube, muito menos com o elenco recheado de estrelas que tinha, tais como: Ronald e Frank de Boer, Kluivert, Luis Enrique, Figo, Simão Sabrosa, Rivaldo, entre outros.

O Barcelona caiu no “grupo B”, junto com Fiorentina, AIK da Suécia e o Arsenal e iria passar de fase após quatro vitórias e dois empates, terminando em primeiro lugar na chave. Com isto, o Barcelona encaminhou a vaga para a segunda fase de grupos, aonde os catalães caíram no “grupo A”, junto com o Porto, Sparta Praga e Hertha Berlim e se classificariam ao mata-mata do torneio após cinco vitórias e um empate. Conseguiram a liderança no grupo e classificação às quartas-de-final da Champions, que seria contra o Chelsea. Uma classificação heroica: após perder a ida no Stamford Bridge por 3×1, o Barcelona devolveu o placar da volta no tempo normal (Rivaldo perdeu um pênalti no jogo antes do prolongamento) e meteria mais dois gols na prorrogação, vencendo por 5×1 e se classificando para as semifinais, que seriam contra o Valência.

VALÊNCIA: o Valência havia terminado em quarto lugar na Liga Espanhola de 1998/1999, mas vinha com a moral em alta pelo título na Copa Del Rey daquela temporada (citado no prólogo deste artigo). Com esta colocação na La Liga, o Valência conseguiu vaga para as fases prévias da Champions League da temporada seguinte. Em 1999, o Valência finalmente voltava a participar de uma UEFA Champions League na história do clube, algo que não acontecia desde a temporada 1971/1972.

O Valência passou pelas prévias (caiu direto na terceira fase de qualificação), e passou para a primeira fase de grupos após eliminar o Hapoel Haifa, de Israel, ao vencer a partida da ida e da volta por 2×0. O Valência caiu naquele que talvez fosse o “grupo da morte”, com os melhores e mais tradicionais times; foi no “grupo F” junto com o Bayern de Munique, Glasgow Rangers e PSV Eindhoven e iriam terminar em primeiro lugar na chave após três vitórias e três empates. Com isto, o Valência se classificou para a segunda fase de grupos, aonde caíram no “grupo B”, junto com Manchester United, Fiorentina e Bordeaux e iriam terminar em segundo lugar nesta chave, após três vitórias, um empate e duas derrotas, suficiente para classificar os che para o mata-mata do torneio. Nas quartas-de-final desta Champions, o Valência enfrentou a Lazio, e se classificou para as semifinais após vencer a ida em casa por 5×2, e uma derrota por 1×0 sofrida na volta não fora suficiente para tirar a vaga do Valência nas semifinais contra os catalães.

O JOGO

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Um dos poucos momentos que Rivaldo viu a cor da bola neste jogo. Neste lance, Angloma estava na cola dele.

Um dos poucos momentos que Rivaldo viu a cor da bola neste jogo. Neste lance, Angloma estava na cola dele.

Ainda que o Valência fosse uma equipe que incomodasse, o Barcelona era o extremo favorito para passar a final e eliminar o Valência. A outra semifinal era entre Real Madri contra Bayern de Munique e todos davam como certo que a final seria o Barcelona contra um destes times, ainda mais depois do Barça ter realizado uma grande virada sobre o Chelsea nas quartas-de-final. Entretanto, os deuses do futebol odeiam o tal do “favoritismo” e a primeira partida das semifinais, realizada no estádio Mestalla, casa do Valência, fez com que todos se surpreendessem com o resultado.

Dia 2 de maio de 2000. Estádio Mestalla. Partida de ida das semifinais da UEFA Champions League 1999/2000 entre Valência e Barcelona. Casa cheia e o “palco” montado. Iria começar a caminhada para a final do maior torneio de clubes da Europa. O juiz suíço Urs Meier deu saída e começou o jogo! Dez minutos de partida, escanteio para o Valência. “El Piojo” Cláudio López cobrou curto para Mendieta, que limpou o marcador e cruzou para o miolo da área, após bate-rebate entre os próprios jogadores do Valência, a bola sobrou limpa e basicamente sem marcação para Miguel Angulo abrir o placar para o time da casa!

Geralmente, quando uma equipe que é pior no papel e só tem o favoritismo de perder, mas faz um gol e abre o placar, tal equipe tende a se fechar e segurar o resultado. O primeiro gol da equipe considerada a mais fraca neste jogo saiu logo aos 10 minutos do primeiro tempo, não só uma atitude desta era complicada de tomar em tal altura da partida, mas o próprio treinador do Valência, o argentino Héctor Cúper, não queria que a equipe tomasse esta postura e ordenou que os valencianos continuassem a pressionar!

Cláudio López roubou a bola de Puyol, chutou de fora da área e marcou o gol! Mas não valeu… o juiz pegou falta no lance em que ele tirou a bola. Minutos depois, Zenden fez a jogada pelo lado direito do Valência, cruzou, Cañizares tinha saltado para segurar a bola e o faria se o zagueiro Mauricio Pellegrino não viesse tentar interceptar em cima, não bastasse isto, Pellegrino fez um gol contra, para desespero e loucura de Cañizares que estava em cima do lance. Agora o jogo estava empatado em um gol.

O jogo segue, o Valência não se intimidou e continuou buscando o resultado dentro de casa. Aos 43 minutos do primeiro tempo, o Valência recupera a bola antes do meio-campo, é passado para Kily González, que enfia a bola para Miguel Angulo no meio de dois defensores do Barcelona, o camisa 10 do Valência completa para dentro do gol, faz o segundo dele e dos morcegos na partida. 2×1 para o Valência, novamente na frente.

Minutos depois do segundo gol e antes do primeiro tempo terminar, Kily González e Carboni fazem uma boa triangulação, Guardiola corta, mas a bola sobra para Mendieta arrematar para o gol, mas foi em cima de Guardiola (jogadores e torcida pediram toque de braço do jogador do Barcelona no lance). Entretanto, na continuação da jogada, a bola sobrou para ele, Miguel Angulo, que foi limpar o zagueiro Puyol da jogada e sofreu a falta dentro da área, pênalti claro marcado por Urs Meier. 47 minutos do primeiro tempo. Mendieta na cobrança. Calmo e sutil como sempre, Mendieta cobrou rasteiro, tirando do goleiro. Resultado: Ruud Hesp de um lado, bola do outro. Gol do Valência, 3×1 sobre o Barcelona. Fim de primeiro tempo.

Após o intervalo, o Barcelona voltou melhor e buscando mais o resultado, afinal precisava correr atrás do prejuízo. Aguentou a primeira metade do segundo tempo assim, depois caiu o ritmo e o Valência chegou até a criar algumas oportunidades. Van Gaal mexeu no Barcelona, deixou a equipe mais ofensiva, colocando Simão Sabrosa e Litmanen. Aos 34 do segundo tempo, o autor dos dois primeiros gols, Angulo, é substituído pelo volante David Albelda, e ele é muito ovacionado pela torcida valenciana presente no local. Héctor Cúper não queria saber de segurar o resultado e sacou o zagueiro Gerard e colocou o atacante Sánchez.

Já eram 45 minutos do segundo tempo, o juiz concedeu dois minutos de acréscimo. O Barcelona passou a correr ainda mais atrás de um gol que poderia deixar as coisas um pouco mais confortáveis na volta. Ao sair tanto para o ataque, o pecado custou caro. Kily González faz com maestria uma bela jogada que envolve todo o time do Valência e deixa os catalães zonzos no meio do campo, sem saber o que fazer. Kily saiu no lado direito da defesa do Barcelona, meteu entre as pernas de Gabri e passou para o artilheiro Cláudio López chutar na entrada da área e ampliar para 4×1 aos 47 do segundo tempo, a bola foi no canto, bateu na trave e entrou, sem chances para Ruud Hesp. Cañizares, que antes estava louco com Pellegrino no gol contra sofrido, agora comemora junto com a torcida a surpreendente goleada!

Ruud Hesp não consegue entender a goleada sofrida. Era o quarto gol.

Ruud Hesp não consegue entender a goleada sofrida. Era o quarto gol.

POSTERIOR

A situação ficou extremamente confortável para o Valência na partida de volta, após calar a boca de todo mundo que já dava o Barcelona como finalista da Champions, venceram historicamente uma equipe que é uma das principais da história do futebol mundial, muito disto se deve ao pensamento, filosofia e estratégia do técnico Héctor Cúper e da união da equipe valenciana em si, que foi primordial em uma vitória inesquecível.

Na volta, o Barcelona venceu de virada o Valência por 2×1. Com estes resultados, o Valência, que era uma equipe que ninguém apostava um centavo furado, chegava a uma inédita final de Champions League. O título infelizmente não veio, perderam a final para os também espanhóis do Real Madri (por sinal, esta final de Champions foi a primeira de sempre entre os dois times do mesmo país, no caso dois times espanhóis), mas as histórias para contar serão eternas!

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E esta foi a primeira edição do quadro “Jogos Inenarráveis” aqui no Goleiro de Aluguel! Espero que vocês tenham gostado novo quadro aqui no blog que abordou uma vitória histórica do Valência sobre os conterrâneos espanhóis do Barcelona, aonde um elenco de grandes jogadores como Kily González, Angulo, Angloma, Cañizares, Mendieta e Cláudio López, mas que não era o favorito, aplicou uma goleada sobre o sempre poderoso Barcelona. Segunda que vem, o quadro volta contando a história de mais um jogo marcante do nosso tão amado futebol! Até lá.

VÍDEO: OS GOLS DO JOGO