O Campeão do Centenário!

Olá, amiguinhos, voltamos mais uma vez com o JOGOS “INENARRÁVEIS”, falando de mais um lendário jogo da história do nosso futebol. Hoje vamos falar daquela que talvez seja a vitória mais marcante da história do América de Natal sobre o rival ABC no clássico rei. Um duelo marcante que envolveu toda a história centenária de dois grandes rivais apenas em 90 minutos e que você vai conferir agora.

A terminação “Clássico Rei” é utilizada para duas grandes peleias do nosso enorme Brasil, este nome é levado para o maior clássico cearense, Ceará e Fortaleza, assim como é utilizado para o maior clássico potiguar, entre América de Natal e ABC, todos os times são muito tradicionais e queridos pelo futebol brasileiro. O artigo de hoje, como já dito, vai falar sobre um duelo entre as equipes potiguares, entre os gigantes “mecão” e “mais querido”, iremos detalhar a memorável final entre as duas equipes no Campeonato Potiguar de 2015, cheia de história para contar.

No bairro da Ribeira, na capital do Rio Grande do Norte (Natal) eis que a elite da cidade fundou o ABC Futebol Clube em 29 de junho de 1915. Exatos quinze dias depois da fundação do ABC, na mesma cidade de Natal, no bairro da Cidade Alta, o América é fundado e ali se iniciava uma das maiores rivalidades do Brasil. Exatos cem anos depois, 2015, ano do centenário das duas equipes, toda a história e rivalidade entre o mais querido e o mecão iriam estar mais intensas, com ambas as equipes cobiçando o estadual como nunca antes havia se visto.

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CAMINHO DOS DOIS TIMES ATÉ A GRANDE FINAL DO CAMPEONATO POTIGUAR DE 2015

O Campeonato Potiguar de 2015 da primeira divisão seria dividido em turno e returno. No primeiro turno, seriam dez equipes e cada equipe jogaria contra a outra uma vez, os dois piores classificados iriam se enfrentar, em partida de ida e volta, contra o rebaixamento, quem somasse menos pontos nestes duelos seria rebaixado. Quem terminasse em primeiro lugar, era dito o “campeão do primeiro turno” e ganhava vaga para a final. O segundo turno era igualzinho, com a diferença que seriam apenas oito equipes, excluindo-se as duas últimas colocadas do turno anterior, agora não haveria mais chances de rebaixamento a ninguém. Quem terminasse em primeiro lugar, era dito o “campeão do segundo turno” e ganhava vaga para a final contra o campeão do primeiro turno (se caso o mesmo time fosse campeão de ambos os turnos, tal time seria declarado campeão automaticamente. O que não aconteceu).

O primeiro turno (Copa Cidade do Natal) teve como campeão o América de Natal, com a melhor campanha disparada do turno, somando sete vitórias e dois empates, marcando 22 gols e sofrendo apenas dois. O ABC terminou em segundo lugar nesta chave, começou mal o turno e se recuperou em seguida, mas terminou quatro pontos atrás do rival. O terceiro colocado da Copa Cidade do Natal foi o Alecrim, outra equipe da capital potiguar que também havia sido fundada em 1915 e despontava como o principal time que poderia estragar a festa dos alvinegros e alvirrubros.

Já no segundo turno daquele Campeonato Potiguar (Copa Rio Grande do Norte) a situação se inverteu. O América caiu de ritmo e rendimento, enquanto o ABC veio bem embalado. Os alvinegros se saíram campeões vencendo as sete partidas do returno, um aproveitamento de 100%, aonde o ABC fez dezessete gols e sofreu apenas um. Como o América foi campeão da Copa Cidade do Natal e o ABC foi campeão da Copa Rio Grande do Norte, ambas as equipes iriam se enfrentar nas finalíssimas, que seriam disputadas em partidas de ida e volta. Por ter a melhor campanha geral, o ABC teria o mando do segundo jogo da finalíssima, que seria no Frasqueirão. O primeiro jogo seria na Arena das Dunas, aonde o América de Natal manda os jogos dele enquanto mandante.

A primeira partida da final terminou empatada em um gol, com Max abrindo o placar para os alvirrubros na primeira etapa e com Reginaldo empatando para o ABC pouco antes dos 40 minutos do segundo tempo. Um empate que não definia nada para lado nenhum. Tudo seria decidido no domingo seguinte.

O JOGO

Dia 02 de maio de 2015. Estádio Frasqueirão, casa do ABC de Natal. Estádio lotado para ver o clássico centenário entre as duas maiores equipes do Rio Grande do Norte, que iria decidir que seria o campeão no ano do centenário dos dois rivais. Não era apenas mais um clássico, era o clássico dos clássicos para as duas equipes. Para evitar de dizer que houve parcialidade na arbitragem, a Federação Norte-Rio-Grandense de Futebol (FNF) foi buscar no Rio Grande do Sul um árbitro FIFA para assumir a bronca no maior clássico rei da história, Anderson Daronco. Apita o juiz, deu saída o América, começou o clássico rei que vai decidir quem é o campeão do centenário!

Jogo já dava indícios de que seria muito tenso e pegado. Aos 13 minutos do primeiro tempo, já saía o primeiro cartão amarelo, para Cléber, zagueiro do mecão. Quatro minutos depois, era a vez de um zagueiro alvinegro receber cartão, Suéliton, ambos levaram o cartão por cometer faltas duras.

Aos 20 minutos do primeiro tempo, escanteio para o América. Cobrança curtinha de Álvaro, só rolou a bola para o capitão Cascata, que ajeitou com o pé direito, abriu espaço e cruzou na cabeça do zagueiro Flávio Boaventura, sozinho, marcar o gol do América. Flávio saiu comemorando de forma irreverente e ainda meteu uma voadora na bandeirinha de escanteio pra encerrar. O herói do gol americano usava a camisa 103. Sim, você não viu nem leu errado, os jogadores do América usaram a numeração da camisa acrescida de 100, em alusão ao centenário do clube.

Flávio Boaventura comemorando o gol dele no clássico. O gol da vitória do América. O gol do título do campeão do centenário!

Flávio Boaventura comemorando o gol dele no clássico. O gol da vitória do América. O gol do título do campeão do centenário!

Em seguida, o América quase ampliou com um golaço, Cascata disparou do meio da rua e acertou a trave do ABC, a bola ainda voltou na cabeça do goleiro Saulo e voltou para o jogo. A zaga afasta. O ABC até criou oportunidades, mas nem sequer chegou com tanto perigo.

Segundo tempo de jogo, ABC dá início. Antes de completar o primeiro minuto do segundo tempo, aquele que era o herói quase se tornou o vilão. O ABC fez a jogada pelo lado direito do time do América, Fabinho cruzou, Flávio Boaventura foi cortar e quase meteu contra, a bola bateu na trave e voltou. O ABC voltou melhor, criando mais chances, mas Busatto estava lá para segurar. Mesmo melhor e com o time mais ofensivo, o gol não saía para os alvinegros. Com isto, o técnico Josué Teixeira sacou o volante Rafael Miranda e o lateral-direito Reginaldo para a entrada dos atacantes João Paulo e Bruno Luís. Preocupado em manter o resultado, o técnico Roberto Fernandes colocou o volante Tiago Dutra no lugar do atacante Alexandre Pardal.

Aos 47 do segundo tempo, o tempo esquentou ainda mais, estrelando dois jogadores que entraram no meio do jogo. Tiago Dutra cometeu falta em João Paulo, o ABCdista não gostou e chutou o volante do América, que revidou. Ambos foram expulsos pelo árbitro Anderson Daronco. Antes da falta ser cobrada, alguns refletores do estádio se apagaram e a partida ficou paralisada por quinze minutos, mais uma coisa para aumentar as tensões de ambas torcidas. A falta foi cobrada, o gol não saiu. O jogo seguiu por mais alguns longos minutos para a torcida do mecão, mas o ABC não conseguiu o empate. Fim de jogo. É a festa dos jogadores, comissão e da torcida do América presente! O América conquistava o Campeonato Potiguar mais importante da história do clube!

Sobre a grandiosa conquista, o técnico Roberto Fernandes alegou que estae título era o maior da história do clube e, em termos de importância, só não era mais importante que ser campeão da Série A e/ou da Copa do Brasil: “Eu acredito que mais importante que este só em termos de Campeonato Brasileiro da Série A, Copa do Brasil, mas até mesmo um título de Série C, na minha opinião, não vai ter a importância do que foi ser campeão no centenário. Isto entrou a história do futebol do Rio Grande do Norte e na minha também! Eu me sinto muito orgulhoso de ter sido o comandante da caminhada que levou o América ao título do centenário. Isso é uma coisa que a gente fala, lembra, e arrepia, porque foi muito importante”, disse o treinador do América.

MELHORES MOMENTOS DO JOGO:

FLÁVIO BOAVENTURA, O VILÃO QUE SE TORNOU O HERÓI

Antes de jogar no América, Flávio Boaventura havia jogado no maior rival do alvirrubro entre 2012 até 2014, após ter saído do Paraná Clube. Depois, ele passou uma temporada no Paços de Ferreira, time da primeira divisão portuguesa. Em 2015, ele retornou ao Rio Grande do Norte, agora para jogar no América. Obviamente, a torcida não gostou, a direção ouviu muitas críticas e Flávio Boaventura resolveu, no primeiro momento, vir sozinho para Natal, sem a família, pois alegou ter recebido ameaças da torcida do mecão.

Não bastava ter jogado no rival, a torcida do América não gostava dele porque em 2014 o América foi rebaixado para a terceira divisão, e Flávio Boaventura usou das redes sociais dele para tirar sarro. Detalhe: Flávio Boaventura já estava no Paços de Ferreira nesta época. E pensar que depois de toda a ira da torcida alvirrubra que Flávio teve que enfrentar, o “jogo virou” no dia 02 de maio de 2015, quando ele fez o gol daquele que é um dos títulos mais importantes da história do América de Natal, se não o mais importante. Passou de vilão mal-amado, para ser o xodó da torcida do mecão, um ídolo.

APELO

Talvez nem eu, nem você, leia e saiba sobre um jogo tão recheado de história quanto foi este clássico rei. Um clássico tão grandioso, mas que este ano arrisca ocorrer apenas no estadual. A vitória por 4×1 do ABC sobre o América no dia 19 de março, pode ter sido o último clássico rei neste ano de 2017, afinal o América vai jogar a quarta divisão este ano, enquanto o ABC está na segundona.

O clássico entre o ABC e o América é um duelo recheado de emoções e histórias marcantes para ambos os lados, hoje trouxemos uma dentre tantas partidas “inenarráveis” e muito disto se deve graças ao campeonato estadual. Daí aparecem pessoas que se acham entendidas na Internet e até nas mídias (sobretudo pessoas que torcem para os principais times do eixo Rio-São Paulo, mas há em outros estados também) falando que os estaduais são campeonatos anacrônicos e que deveriam ser extintos. Estas pessoas não conseguem ver que acabar com os estaduais, nada mais é que uma ideia esdrúxula que vai mutilar o futebol brasileiro, vai acabar com grandes clássicos nacionais, além de minar a trajetória de times “pequenos” e tradicionais do Brasil.

O que deveria haver era uma reformulação dos estaduais, para que os times menores também tivessem destaque, afinal os estaduais devem abranger a todos, mas as federações parecem apenas querer atender as grandes entidades, estão pouco se lixando para o futebol, só querem saber de vender. Volta-e-meia aparecem uns loucos pedindo e defendendo o fim dos torneios estaduais, apenas espero que eles não consigam o que querem pelo bem do nosso futebol. Estadual é clássico!

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E esta foi a segunda edição do Jogos “Inenarráveis” aqui no blog do Goleiro de Aluguel! Espero que vocês tenham gostado da abordagem do jogo do “Campeão do Centenário”, um dos jogos mais marcantes da história do clássico entre o América e o ABC, em que os alvirrubros se saíram melhor. Semana que vem, o quadro volta abordando e contando a história de mais uma partida memorável que tirou o fôlego de todos! Até a próxima segunda.