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Chora, Jorge Jesus!

A Primeira Liga, ou aquilo que conhecemos como Campeonato Português, não é aquilo que podemos chamar de algo equilibrado, afinal é um campeonato dominado historicamente por três times, sendo que o Benfica é o maior campeão nacional português, seguido do Futebol Clube do Porto e depois do Sporting, que são os “três grandes” portugueses que dominam o futebol do país, sendo que de alguns anos para cá, o Braga tem se mostrado a quarta força depois destes times, mas ainda longe de fazer frente ao Benfica, Porto e Sporting.

Este artigo foi escrito durante a temporada 2016/2017 da Primeira Liga, a 83ª edição deste torneio. Nas oitenta e duas edições anteriores a esta, apenas duas vezes o campeão não fora Benfica, Porto ou Sporting. Na temporada 1945/1946, o Belenenses foi o campeão e na temporada 2000/2001, o Boavista do goleiro Ricardo foi o campeão, nas outras edições, o campeão foi um dos “três grandes” e nesta temporada, o campeão provavelmente será Benfica ou Porto.

Benfica e Porto, sem dúvida nenhuma, é o maior clássico português, e apesar do Benfica ter mais títulos nacionais que o Porto, os dragões possuem uma pequena vantagem sobre as águias no confronto direto entre os dois times, mas o clássico, ainda sim é algo bastante equilibrado historicamente falando. A partida no artigo de hoje será um histórico e memorável jogo para os portistas que, em 2013, basicamente garantiram o título da Primeira Liga 2012/2013 sobre o maior rival em casa, sendo que o herói foi o mais improvável possível.

CAMINHO DAS DUAS EQUIPES ATÉ O JOGO

Fernando (Porto) e Lima (Benfica) no jogo que logo mais será retratado

Fernando (Porto) e Lima (Benfica) no jogo que logo mais será retratado

A Primeira Liga de 2012/2013 era composta por dezesseis times que jogariam entre si em dois turnos, totalizando trinta jogos para cada time e Porto e Benfica eram as duas equipes que estavam lutando pelo título do Campeonato Português daquela temporada. Chegávamos a 29ª rodada, com o Benfica liderando com 74 pontos, dois pontos a mais que o Porto, segundo colocado e esta rodada poderia garantir o título ao Benfica caso as águias vencessem, porém, na verdade, poderia decidir o título para qualquer equipe, visto que quem terminasse aquela rodada na frente, basicamente garantia o título na última rodada visto as diferenças disparatórias de Porto e Benfica para os demais times daquele campeonato.

Até então, Porto e Benfica já haviam realizado 28 jogos e estavam invictos na Primeira Liga: o líder Benfica somava 23 vitórias e cinco empates, enquanto o Porto somava 22 vitórias e seis empates. Eis que chegava a decisiva 29ª rodada para ambas as equipes, o clássico entre Porto e Benfica seria no Estádio do Dragão, a casa do Futebol Clube do Porto, no sábado de 11 de maio de 2013.

O JOGO

Apita o árbitro Pedro Proença, o time do Benfica dá a saída! Começa o jogo mais importante da Primeira Liga 2012/2013. Buscando o ataque armado em um ofensivo 4-3-3 e precisando da vitória, o Porto é quem se lança para o ataque. A jogada sai pelo meio com Varela, que passa para João Moutinho enfiar um belo passe para o lateral Danilo, que sai livre na ponta direita, cruza, mas a bola vai muito forte, não dando para o artilheiro colombiano Jackson Martinez alcançar, mas já era um susto para o goleiro Artur Moraes.

O Benfica andava recuado e conseguia neutralizar as tentativas do Porto. Eram dados dezoito minutos da primeira etapa, quando o time das águias tem um arremesso de linha lateral perto da grande área portista. É Sálvio quem vai para o arremesso, ele pega a bola, limpa-a e joga na área do Porto, Mangala não consegue cortar, Ezequiel Garay chuta, a bola desvia em Fernando e acaba sobrando livre para Lima, o camisa 11 do Benfica, que saiu de trás da defesa do Porto e meteu a bola para dentro das metas de Helton, que reclamou muito com a defesa do Porto, que ficou parada vendo Lima entrar livre para abrir o placar. O Benfica abria o placar aos 18 minutos da primeira etapa em uma jogada vinda de lateral. Era um gol que poderia dar o título ao time das águias, mas ainda tinha muita bola para rolar…

Lima comemora o gol marcado por ele para o Benfica

Lima comemora o gol marcado por ele para o Benfica

O jogo seguia truncado, o Benfica estava tentando matar o jogo com mais um gol, mas nisto acabou cedendo o contra-ataque. São 24 minutos do primeiro tempo. O Porto vem pra cima pelo centro com Lucho González, que passa para Varela, que carrega a bola, invade a área, tenta cruzar rasteiro, mas Maxi Pereira corta, mas a sobra ainda é do Porto, com Alex Sandro. Os defensores do Benfica partem para marcar o brasileiro, mas ele encontra Varela livre na ponta esquerda, que cruza rasteiro, mais uma vez a bola desvia em Maxi Pereira, no meio das pernas do uruguaio, um desvio fatal que engana o goleiro Artur Moraes, que ainda chega a encostar na bola, mas não consegue evitar o gol de empate dos dragões, que estavam de volta ao jogo com o placar empatado em 1×1.

Dois minutos depois, falta para o Benfica, de média distância, Lima vai para a bola, desce o pé no centro do gol, obrigando Helton a jogar a bola para o escanteio. No tiro de canto, nada acontece. A bola sobra para a equipe do Porto, que parte pela direita com Danilo, que cruzou para Jackson Martinez, mas o colombiano não conseguiu arrematar, acabou passando para João Moutinho, que ajeitou para a perna esquerda, a perna que não é a boa, e arrematou de longe, obrigando Artur Moraes a fazer uma grande defesa. Na sequência do lance, falta de Jackson Martinez sobre Garay.

Depois deste lance, as duas equipes seguiram procurando o gol, mas sequer ofereceram perigo ao adversário. Fim de primeiro tempo, o placar mostrava um empate em um gol, resultado este que não garantia títulos a ninguém, mas beneficiava muito mais o Benfica do que o Porto para a disputa do título na última rodada.

As equipes voltam do intervalo, rola a bola, é o segundo tempo de jogo. Quem vem chegando é o Porto, a jogada se inicia com Lucho pelo meio, que vai segurando a bola apesar da pressão dos benfiquistas, ele chega perto da área e passa a bola para Varela, que parte para cima de Maxi Pereira, invade a área e quando todos pensavam que ele iria cruzar, Varela viu Artur Moraes adiantado e meteu por cobertura sobre o goleiro benfiquista, que conseguiu voltar e tirou a bola para escanteio com a ponta dos dedos.

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Lucho González e Fernando marcam Sálvio

Minuto 25 da segunda etapa, é falta para o Porto, João Moutinho joga na área, para Jackson Martinez que, sem marcação, não consegue desviar a bola direito de cabeça, a bola sobe e termina em tiro de meta para o Benfica. O técnico Jorge Jesus recua mais o time promovendo a entrada de Roderick Miranda no lugar de Nico Gaitán, em seguida ele troca um atacante por outro, tirando Lima, o autor do gol do Benfica, para a entrada de Óscar Cardozo. O técnico do Porto, Vítor Pereira, não deixa por menos, tira o volante Fernando e o meia Lucho González para a entrada do meia-avançado Steven Defour e do atacante Kelvin, brasileiro de dezenove anos retornado de empréstimo do Rio Ave, que havia vindo do Paraná Clube.

E já são 35 minutos de jogo, é falta para o Benfica, barreira formada, Garay se encaminha para a cobrança, mas quem vai é Óscar Cardozo, de perna esquerda, ele bate rasteiro ao lado da barreira, a bola vai no cantinho direito e ele obriga o goleiro brasileiro Helton a fazer uma bela defesa espalmando a bola para escanteio.

O jogo segue pegado, agora vem o Porto. Jackson Martinez está com a bola, mas em cima dele estão dois jogadores do Benfica o marcando, ele recua mais atrás para Alex Sandro, que joga nas costas da defesa do Benfica, encontra James Rodríguez isolado, ele e o goleiro Artur Moraes, o colombiano deixa a bola quicar e arremata forte de perna esquerda. A bola bate no pé da trave e vai pra fora, o goleiro Artur tirou a bola com o olho. James, o camisa 10 do Porto, leva as mãos à cabeça e a torcida não acredita no gol que ele perdeu. Já eram 40 minutos do segundo tempo e James podia ter perdido aquela que seria a chance do gol da vitória, mas não passou de um susto aos benfiquistas. O jogo seguia empatado em um gol.

Depois do lance, Jorge Jesus saca Ola John e põe Pablo Aimar para segurar a bola no meio-campo, já Vítor Pereira saca o lateral-direito Danilo e coloca o atacante Liédson no time do Porto. Chegamos aos 45 do segundo tempo, Pedro Proença concede quatro minutos de acréscimo. E vem o Porto precisando da vitória, a bola fica presa no meio, o Porto se atrapalha na saída de bola, mas dá certo, Varela passa para Kelvin, que logo em seguida passa para Liédson, o luso-brasileiro deixa a bola correr e devolve para Kelvin, que domina a bola com o pé direito, ela sobe um pouquinho e antes que Roderick Miranda pudesse tentar o corte, Kelvin chuta forte, rasteiro e cruzado da entrada da área do Benfica, no cantinho de Artur Moraes, é o gol do Porto! É a virada que colocava o Porto à frente do Benfica na tabela! E quanto sofrimento… o gol saiu aos 46 minutos da etapa complementar. A torcida enlouquece, Vítor Pereira corre para todos os lados comemorando, os jogadores do Benfica lamentam e o técnico das águias, Jorge Jesus, se ajoelha e começa a chorar o gol sofrido.

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Enquanto o treinador portista, Vítor Pereira, comemora o gol, Jorge Jesus ajoelha-se e chora

Enquanto o treinador portista, Vítor Pereira, comemora o gol, Jorge Jesus ajoelha-se e chora

O time do Benfica, que catimbou o jogo inteiro demorando nas cobranças de lateral, escanteio, tiro de meta e falta, agora tinha pressa, enquanto o Porto começara a enrolar para o jogo terminar logo. O Benfica veio com tudo para cima, mas não conseguiu alcançar o empate. Já eram quase 50 minutos do segundo tempo, falta para o Benfica na defesa, Artur Moraes vai para a cobrança para colocar todos para frente. Ele chuta, sem sucesso, Pedro Proença acaba com a partida para muita comemoração da torcida, dos jogadores e da comissão técnica do Porto. os dragões passavam, por um ponto, à frente do Benfica e iriam decidir com vantagem o jogo na última rodada.

PÓS-JOGO

Ao final deste jogo surpreendente com o gol que garantiu a liderança ao Porto nos acréscimos do segundo tempo, Kelvin, que pouco fez no Porto e arrisco-me também dizer na carreira dele enquanto jogador, virou ídolo dos portistas com o “gol do título”, com certeza é o gol mais importante da carreira de Kelvin anotado por ele. Na última rodada, o Porto estava um ponto na frente do Benfica e dependia apenas de si mesmo para se sagrar campeão da Primeira Liga de 2012/2013.

Para ser campeão, o Benfica precisava que o Porto não vencesse a partida fora de casa contra o Paços de Ferreira e precisava vencer o jogo em casa contra o Moreirense. O time das águias fez a parte dele vencendo por 3×1, mas o Porto também venceu o jogo deles por 2×0 e se sagraram, pelo terceiro ano seguido, campeão do Campeonato Português. Depois disto, o Porto ainda ganhou a Supertaça Cândido de Oliveira (uma espécie de “Supertaça de Portugal”, um torneio disputado em jogo único entre o campeão da Primeira Liga e o campeão da Taça de Portugal) ao vencer o Vitória de Guimarães por 3×0. Estes dois títulos foram os últimos do Porto, que desde então não consegue ganhar mais nada, algo que não corresponde à grandeza de um dos maiores clubes de Portugal.

Elenco do Porto campeão levantando a taça

Elenco do Porto campeão levantando a taça

E esta foi a quarta edição do Jogos “Inenarráveis” aqui no blog do Goleiro de Aluguel! Espero que vocês tenham gostado da abordagem deste jogo histórico para os portistas que trouxe Kelvin como herói, um improvável herói, que basicamente garantiu o título português ao Porto com um gol aos 46 do segundo tempo. Semana que vem, o quadro volta abordando mais um jogo daqueles de tirar o fôlego de qualquer um. Até lá.

JOGO COMPLETO:

RELATO DOS GOLS, NARRAÇÃO EMOCIONANTE DE FERNANDO ENRICO E PEDRO FERREIRA DA RÁDIO ANTENA 1: