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Em Dois Minutos (Ou Menos) Tudo Pode Mudar!

Não adianta, há jogos tão “inenarráveis” que são impossíveis de se fazer uma boa introdução sobre o mesmo, emoção não é algo fácil de se explicar, talvez seja algo impossível de se explicar, mas sempre sentimos algo dentro de nós, seja bom ou ruim, que nos deixam sem palavras. Emoções fortes e marcantes assim o futebol nos dá, ou melhor, há emoções que só o futebol proporciona, nada mais, e o jogo de hoje é um destes, com emoções até o último, um jogo realmente “inenarrável”.

O que não falta no futebol é clássico, duelos cheios de histórias, seja entre times ou seleções. Alemanha e Itália é um caso destes, ainda que muitos digam que a Alemanha tenha uma freguesia histórica sobre a Itália, visto que, nos principais confrontos entre estas duas seleções, a Itália quase sempre se saiu por cima dos alemães, inclusive a Itália já ganhou uma Copa do Mundo sobre os alemães em 1982, quando as duas equipes chegaram a grande final e os italianos venceram por 3×1. Há quem diga que, na Copa do Mundo de 1970, Itália e Alemanha realizaram o “jogo do século” nas semifinais daquele mundial, em que, provavelmente um dia falaremos aqui no quadro. Este “jogo do século” terminou empatado em um gol no tempo normal, foi para a prorrogação e a Itália venceu por 4×3 ao final. O jogo de hoje, assim como em 1970, teve muitas emoções, foi decidido na prorrogação e os italianos se deram melhor. As emoções deste jogo vocês conferem agora.

CAMINHO DAS DUAS EQUIPES ATÉ O JOGO

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A Itália havia se classificado para a Copa do Mundo de 2006 sem demais problemas ao terminar com folga em primeiro lugar no Grupo 05, a Alemanha teve menos problemas ainda porque já tinha vaga automática ao mundial por ser o país-sede.

A Alemanha estava no Grupo A do torneio, junto com Costa Rica, Equador e Polônia, venceu na estreia a Costa Rica por 4×2 (jogo de estreia daquela Copa do Mundo), venceu a Polônia pelo placar mínimo na segunda partida e, por fim, o Equador por 3×0 para garantir a liderança do grupo com 100% de aproveitamento. Nas oitavas-de-final, contra uma forte Suécia de Svensson, Ibahimović, Larsson e Ljungberg, a classificação veio após uma vitória por 2×0 com dois gols de Podolski. Nas quartas-de-final, contra os argentinos, a Alemanha saiu perdendo, mas empatou em uma partida dramática aonde tiveram que superar a enorme catimba argentina. A decisão foi para os pênaltis e o goleirão Jens Lehmann defendeu duas penalidades, dando a vitória por 4×2 para os alemães na decisão e classificou os alemães para as semifinais. A Alemanha vinha em busca do tetracampeonato dentro de casa.

Já a Itália caiu no Grupo E daquela Copa do Mundo e também passou em primeiro lugar na chave aonde estava, mas não com 100% de aproveitamento. A Itália venceu na estreia a até então estreante seleção de Gana, ao vencer os ganeses por 2×0, empataram em um gol com os estadunidenses no segundo jogo e venceram a República Tcheca por 2×0 na última partida para se classificar ao mata-mata. Nas oitavas-de-final, contra a Austrália, a Itália venceu os australianos por 1×0 com um jogador a menos: após bela jogada de Fabio Grosso, o italiano sofreu um polêmico pênalti de Neill faltando cerca de dez segundos para o jogo terminar! Totti bateu e marcou o gol aos 50 minutos do segundo tempo! Emoções até o último minuto, no último lance veio a classificação italiana. Nas quartas-de-final, contra a até então estreante Ucrânia, a Itália meteu uma sacolada nos ucranianos por 3×0 e se classificaram para as semifinais, aonde iriam enfrentar os donos da casa, a Alemanha. Ambas as seleções estavam em busca do tetracampeonato mundial!

O JOGO

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Apita o árbitro mexicano Benito Archundia, rola a bola no Westfalenstadion, casa do Borussia Dortmund. O dia é 4 de julho de 2006 e estava acontecendo a primeira semifinal daquela Copa do Mundo, ali sairia o primeiro finalista daquele mundial. A partida começa e quem vem para cima e arrisca primeiro é a Alemanha, Klose está com a bola, mas marcado, ele passa para Lukas Podolski, que recua um pouco para Ballack chutar de longe, mas a bola vai pra fora, até meio longe do gol.

São 14 minutos do primeiro tempo, vem a Alemanha novamente pelo lado direito italiano. Ballack está com a bola, ele abre, vem para o lado esquerdo, lança forte a bola para Klose na entrada da grande área, que em seguida rola Lukas Podolski, que vinha entrando livre para marcar, mas o zagueirão Fabio Cannavaro chegou antes e cortou o chute de carrinho, mandando a bola para longe. No lance seguinte, vem a Itália, lançamento para Perotta, nas costas da defesa italiana, o volante estava deslocado e tinha todas as chances de fazer o gol… mas ele não tem nem cacuete de atacante, não conseguiu dominar, melhor para Jens Lehmann, que agarrou com firmeza a bola.

São 28 do primeiro tempo, a Itália tem uma falta pela esquerda, na linha de fundo. Pirlo na cobrança. A jogada é ensaiada, ele cobra rasteiro para trás, a bola chega em Totti, que arremata, mas a bola bate na defesa, a sobra é da Alemanha, que afasta o perigo. Em seguida, a Itália chega novamente, com uma bela jogada de Fabio Grosso, que tenta lançar para Luca Toni, mas Metzelder não deixa o italiano arrematar.

E vem a Alemanha na sua histórica arma mortal, o contra-ataque, a bola está no ataque com Lukas Podolski, a marcação chega e ele passa para Klose, que faz a abertura na direita para Schneider, que domina isolado, ele e Buffon, mas Schneider chuta a bola por cima. A Alemanha chegava com muito perigo, era a bola mais perigosa do jogo até então, mas passou muito perto. O primeiro tempo se seguiu com as equipes tentando o gol sem sucesso, mas ambas estavam mais na defensiva e na cautela do que se expondo ao ataque. Fim de primeiro tempo, jogo empatado e placar fechado.

Começa o segundo tempo com a Alemanha propondo mais o jogo e partindo para o ataque. Aos quatro minutos vem a Alemanha pelo lado esquerdo italiano com Klose, ele vem carregando sozinho ainda que Gattuso esteja o marcando, ele invade a área até com certa facilidade com os dribles, Klose vinha chegando até que Buffon interveio saindo do gol e mandando a bola pra frente. No contra-ataque, a Itália parecia chegando com perigo, mas Fabio Grosso estava em impedimento.

São 17 minutos do segundo tempo, e vem a Alemanha, mais uma vez pelo lado esquerdo italiano, com Schneider, que chega na linha de fundo e, ao invés de cruzar, faz um passe para Podolski na entrada pequena área, que gira, limpa a marcação de Materazzi e arremata forte para uma grande defesa de Buffon, que dá rebote, na sobra, na entrada da área, Friedrich chute por cima do gol italiano, sem muito perigo, mas mais uma vez, os alemães chegavam com um perigo considerável às metas italianas.

Agora um erro do árbitro mexicano, que apita uma falta para a Alemanha na entrada área italiana aos 35 do segundo tempo, mas sequer houve algum sinal de falta no lance e se houvesse, teria sido claramente dentro da área italiana, logo, deveria ser pênalti, e olhem que o juizão estava relativamente perto do lance. De qualquer forma, era uma falta perigosíssima para os alemães cobrarem. Ballack na cobrança, ele desce o pé, mas com muita força e a bola vai por cima do gol de Buffon.

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A Itália buscou ainda mais o ataque, mas caiu muito na linha de impedimento alemã e nas saídas do gol de Lehmann, enquanto a Alemanha não chegou com perigo significativo mais no jogo. Era o final do segundo tempo, o empate sem gols persistiu, era o terceiro empate sem gols entre Alemanha e Itália em Copas do Mundo, o oitavo jogo que terminava empatado sem gols naquele mundial e era a quinta prorrogação que viveríamos na Copa do Mundo de 2006. Teríamos mais dois tempos de quinze minutos para decidir a vaga na grande final antes de uma possível disputa por pênalti.

A Alemanha já havia queimado duas substituições, com o técnico Jürgen Klinsmann tirando Borowski para a entrada de Schweinsteiger e sacando Schneider para a entrada de Odonkor, já a Itália havia sacado Luca Toni para a entrada de Gilardino e, durante o intervalo do fim do segundo tempo com a prorrogação, o técnico Marcello Lippi tirou Camoranesi e colocou Iaquinta no time italiano, deixando uma formação mais ofensiva.

A primeira chance é da Itália, com o recém-entrado Gilardino, que recebeu a bola na linha de fundo, foi avançando, limpou a marcação de Metzelder, chegou cara-a-cara com Lehmann e bateu meio mascado, mas conseguiu deslocar Lehmann, só que a bola bate na trave e volta. A sobra é alemã, que sai jogando. No minuto seguinte, escanteio para os italianos, cruzamento baixo cortado pela defesa alemã, mas a bola sobra na entrada da área para Perrotta, que bateu forte e acertou o travessão. Dois minutos depois, Perrotta sai para a entrada de Del Piero.

Antes do fim da primeira etapa da prorrogação, Klose sai para a entrada de Neuville e ainda deu tempo da Alemanha chegar com certo perigo, após um contra-ataque, Odonkor partiu pelo lado esquerdo italiano, cruzou na área, livre para Podolski, na cabeça do alemão nascido na Polônia, que cabeceou mal, ao lado do gol… mas a defesa italiana não escapou de uma bronca de Buffon, por terem deixado o polaco-alemão livre na área da azzurra.

Segundo tempo da prorrogação, a Itália, com Gilardino e Del Piero ainda frescos, é quem propõe o jogo, mas a Alemanha quem chega com perigo primeiro aos seis minutos do segundo tempo da prorrogação, após a Itália ter tentado o gol sem sucesso nenhum, a Alemanha veio trocando passes e chegando ao ataque, Kehl apareceu pelo meio, ajeitando para a boa perna esquerda dele, mas ele preferiu passar para Podolski extremamente livre e isolado, que chutou forte para uma grande defesa de Buffon! A lenda italiana espalma a bola para escanteio e Podolski leva as mãos à cabeça não acreditando na defesa realizado pelo goleiro italiano.

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Fabio Grosso bateu e...

Fabio Grosso bateu e…

Já são 12 minutos do segundo tempo da prorrogação e o placar segue fechado, Pirlo vem pelo meio e arremata de muito longe, obrigando Lehmann a realizar uma bela defesa e mandar a bola para escanteio. No escanteio, Del Piero cobra, joga na área, a zaga afastou, mas a bola sobrou para Pirlo, que, com muita calma, domina a bola e a carrega, vem levando, quando os marcadores chegam, ele toca para Fabio Grosso, sem marcação, dentro da área alemã; Grosso, sem pensar, chuta para o gol alemão com enorme precisão, no cantinho de Lehmann, sem chances para o goleiro alemão. Faltando menos de dois minutos para acabar o segundo tempo da prorrogação, a Itália abria o placar com Fabio Grosso e colocava os dois pés na final, Grosso saiu correndo para comemorar com enorme felicidade e todos companheiros de seleção o abraçaram.

Agora a pressa e o desespero eram da seleção alemã, que veio com tudo para cima dos italianos, do jeito que podiam. Já eram dados 15 minutos do segundo tempo da prorrogação, tempo regulamentar esgotado e a Itália vencia por 1×0, a Alemanha vinha naquela que poderia ser a última chance para mandar o jogo para os pênaltis, cruzamento na área italiana cortado por Cannavaro, a bola cai nos pés de Podolski, que não domina direito e Cannavaro o desarma, ele iria sair jogando, mas acabou deixando a bola com Totti, que veio para cima dos alemães, ele toca para Gilardino, que vem segurando a bola rumo à área alemã, mas com Lahm o marcando. Gilardino corta para o meio e passa para Del Piero na esquerda, o italiano entra isolado e sozinho, sem marcação, e, na saída do goleiro Lehmann, faz o segundo gol italiano antes do fim da prorrogação. Acabava o jogo, acabava o sonho do tetra para os donos da casa, seguia viva a esperança do fim do jejum italiano de 24 anos sem títulos, a Itália vencia a Alemanha por 2×0 e iria para a grande final da Copa do Mundo de 2006!

O gol de Del Piero que selou a vitória italiana e a vaga para a final

O gol de Del Piero que selou a vitória italiana e a vaga para a final

PÓS-JOGO

Com a derrota, a Alemanha iria ter de se contentar com o terceiro lugar, ao vencer Portugal na disputa por 3×1. A Itália, 24 anos depois, voltaria a conquistar uma Copa do Mundo, após empatar em um gol com a França no tempo normal e na prorrogação e vencer por 5×3 na decisão por pênaltis, em um jogão aonde Zidane encerrou a carreira, mas que deu um fim de forma melancólica, ao ser expulso depois cabecear Materazzi no peito após o zagueiro italiano ter xingado a irmã de Zidane de prostituta. Enfim, após este jogo, a Itália conseguiu o tetra e seguiu invencível contra a Alemanha em Copas do Mundo!

E esta foi a sétima edição do Jogos “Inenarráveis” aqui no blog do Goleiro de Aluguel! Espero que vocês tenham gostado da abordagem deste jogão entre Itália e Alemanha na Copa do Mundo de 2006, com emoções até o último minuto, em que tudo foi definido nos instantes finais da prorrogação. Semana que vem, o quadro volta abordando a história de mais um lendário jogo. Espero vocês semana que vem!

OS GOLS COM A NARRAÇÃO EMOCIONANTE DE FABIO CARESSA, DA SKY SPORT:

MELHORES MOMENTOS DO JOGO: