Um “Conto de Fadas” que Nunca Mais Vimos

Pra quem acompanhou a Copa do Mundo de 2002, se lembra muito bem que esta foi uma Copa marcada por grandes “zebras”, com seleções grandes, fortes e tradicionais sendo eliminadas precocemente do torneio, como a França de Fabien Barthez, que era a atual campeã do mundo e da Eurocopa, chegou com uma das grandes favoritas, mas foi eliminada logo na primeira fase e sem marcar um gol sequer, e também a Argentina, outra seleção que chegou como grande favorita ao título, mas sequer passou da fase de grupos. Da mesma forma que seleções fortes caíram cedo, outras seleções pequenas, sem muita tradição e desconhecidas fizeram história naquele Mundial, tais como a Turquia, que chegou nas semifinais e terminou em terceiro, a Coréia do Sul, um dos donos da casa, que também chegou nas semifinais e terminou em quarto lugar naquela Copa (apesar de quê, a Coréia do Sul chegou longe muito graças à ajuda do “apito amigo” nos jogos contra Portugal, Itália e Espanha) e o Senegal, seleção que será basicamente “homenageada” neste artigo.

Esta foi a única vez que o Senegal participou de uma Copa do Mundo, e que participação!

CAMINHO DAS DUAS SELEÇÕES ATÉ O JOGO

Linderoth ao fundo, de apoio a Magnus Svensson marcando Pablo Aimar no duelo entre Suécia e Argentina, válida pela 3ª rodada do grupo C - resultado do jogo: Suécia 1x1 Argentina.

Linderoth ao fundo, de apoio a Magnus Svensson marcando Pablo Aimar no duelo entre Suécia e Argentina, válida pela 3ª rodada do grupo C – resultado do jogo: Suécia 1×1 Argentina.

SUÉCIA: Após ficar de fora da Copa do Mundo de 1998, a Suécia voltava para uma Copa do Mundo após ter feito uma grande campanha nas eliminatórias. A Suécia estava no grupo 04 das eliminatórias europeias para o mundial de 2002, em um grupo que continha Azerbaijão, Eslováquia, Macedônia, Moldávia e Turquia. A Suécia terminou em primeiro lugar na chave, após oito vitórias e dois empates, tendo a melhor campanha dentre todas as seleções das eliminatórias europeias, se classificando diretamente para a Copa do Mundo de 2002, sem precisar de passar por play-offs.

Argentina, Inglaterra, Nigéria e Suécia. Este era o grupo F, o “grupo da morte” daquele mundial. A Suécia estreou empatando com os ingleses em um gol, no segundo jogo, venceram por 2×1 os nigerianos. Eis que chegava o terceiro jogo da chave, com tudo indefinido para os argentinos, ingleses e suecos, estavam em disputa as duas vagas do grupo para estas três seleções. A Suécia precisava apenas de um empate com os argentinos na última partida para se classificarem e foi o que aconteceu, empataram em um gol e se classificaram em primeiro lugar na chave. Um belo resultado para os suecos, um macabro resultados para os hermanos argentinos, que chegaram, assim como a França, com favoritismo ao título, mas sequer passaram da fase de grupos (coincidentemente, igualzinho aos franceses, de novo).

SENEGAL: os senegaleses conseguiram uma vaga para a Copa do Mundo no sufoco. Após passar pelo Benin na primeira fase, empatando fora de casa em um gol e vencendo pelo placar mínimo em casa, o Senegal se classificou para os grupos, aonde iriam para o grupo C, junto com Argélia, Egito, Marrocos e Namíbia. O Senegal iria jogar contra todas estas seleções em dois turnos e quem somasse mais pontos no grupo, seria a seleção classificada para a Copa do Mundo de 2002.

À direita, o treinador francês do Senegal, Bruno Metsu. Ao lado dele, o auxiliar técnico, Jules Bocande

À direita, o treinador francês do Senegal, Bruno Metsu. Ao lado dele, o auxiliar técnico, Jules Bocande

Após quatro vitórias, três empates e uma derrota, o Senegal se classificou para uma Copa do Mundo pela primeira vez na história do país. Com estes resultados, o Senegal terminou com o mesmo número de pontos que o Marrocos, que teve a mesma campanha, mas o Senegal passou por conta do saldo, pois em sete jogos fez quinze gols e sofreu apenas três, enquanto o Marrocos fez oito gols e sofreu três.

Na Copa do Mundo, Senegal caiu no grupo A, junto com Uruguai, Dinamarca e a favorita França. O primeiro jogo daquela Copa do Mundo foi entre a França e o Senegal e enquanto todos esperavam que a França, mesmo sem Zinédine Zidane, viesse a “engolir” o Senegal, aconteceu que os senegaleses venceram por 1×0 a seleção da França, isto fora o baile, aonde o Senegal jogou muita bola e já começava a se mostrar ao mundo e surpreender a todos nesta partida; ali, todos começavam a conhecer o Senegal de Papa Bouba Diop, Camara, Diouf e companhia, comandados por Jules Bocande e pelo técnico francês Bruno Metsu, “o feiticeiro branco” que mudou a história do futebol senegalês.

Depois, o Senegal empatou em um gol com a Dinamarca no segundo jogo e em 3×3 com o Uruguai no último jogo da chave (após terminar o primeiro tempo vencendo por 3×0, o Senegal deixou o Uruguai empatar na etapa complementar, e quase tomou a virada), resultados suficientes para classificar a seleção senegalesa para às oitavas-de-final da Copa do Mundo, com a seleção terminando em segundo lugar na chave.

O JOGO

É dia 16 de junho de 2002, apita o juiz paraguaio Ubaldo Aquino, rola a bola no Ōita Stadium.

A primeira chance é da Suécia, aos quatro minutos de jogo. A Suécia tem falta de média distância para cobrar, a jogada é ensaiada. Linderoth passa por cima da bola e Allbäck acha um bom passe para Mellberg, que deixa a bola correr e emenda o chute, o goleiro Tony Sylva defende com os pés, mas dá rebote, a bola sobra para Anders Svensson chutar do jeito que veio, com o pé esquerdo, mas a bola foi para fora, ele errou até por muito a chance de abrir o placar, a posição era ruim, mas o gol estava sem goleiro.

Onze minutos de jogo, tem escanteio a seleção da Suécia. Cruzamento na área, o goleiro senegalês Tony Sylva saiu na bola para cortar, mas o artilheiro Henrik Larsson se antecipou ao goleiro e cabeceou para o fundo do gol! A Suécia conseguia abrir o placar logo cedo com o artilheiro e referência da equipe.

O artilheiro Henrik Larsson comemora o seu gol.

O artilheiro Henrik Larsson comemora o seu gol.

Senegal tinha que partir para o ataque, visto que estava ser eliminada com este resultado. Senegal vinha para cima pelo lado direito sueco, com o principal jogador do time, El Hadji Diouf, que se mostrava muito habilidoso e um excelente driblador. Diouf aplica um lindo corte em Jakobsson, chutou cruzado na entrada da área, a bola cruzou a defesa sueca, passou pelo goleiro Hedman e chegou no pé de Papa Bouba Diop, que completou para dentro do gol… mas não valeu… Diop estava à frente dos zagueiros, impedido e o bandeira anulou o gol de empate senegalês por causa da posição irregular do meia de Senegal.

O Senegal seguia tentando, Diouf conduzia e fazia as jogadas pelas pontas, inclusive chegou a invadir a área adversária metendo a bola nas canetas de Linderoth, na continuação do lance, Magnus Svensson vem o marcar e o derruba dentro da área, mas Ubaldo Aquino nada marca apesar das reclamações. O jogo segue.

37 do primeiro tempo, Senegal segue tentando, fazendo jogadas individuais com dribles precisos, mas a defesa sueca está bem postada e não deixa espaços. A saída é tentar de longe. A bola está com Henri Camara, camisa 7 da seleção senegalesa, que recebe e prende a bola, prossegue e com um corte dribla a marcação do capitão sueco, Mjällby, não deixa Magnus Svensson chegar e arrisca de fora da área, um chute preciso, no cantinho de Hedman, que pula, mas não acha nada, golaço. Senegal empatava o jogo e agora estava tudo igual no Japão!

Antes do primeiro tempo acabar, a Suécia ainda chegou com perigo em uma cobrança de falta de média distância, cobrada por Linderoth. Ele bateu bem no ângulo, mas o goleiro Tony Sylva estava lá para defender excepcionalmente, encaixando a bola. Termina o primeiro tempo no Ōita Stadium, o jogo estava empatado e indefinido, com as duas equipes tentando o gol e a classificação para às quartas-de-final daquele Mundial.

Henri Camara empata o jogo!

Henri Camara empata o jogo!

Começa o segundo tempo com a certeza de muitas emoções! A primeira chance é sueca, com Larsson vindo pela lado direito senegalês. A marcação chega, o camisa 11 ajeita para o pé direito e cruza para Allbäck, que passa e ajeita de cabeça para Linderoth entrar livre na área e bater de primeira para o gol… mas Linderoth errou por muito, pegou errado na bola e a redonda viajou. Apesar disto, a Suécia dava um susto em Senegal com uma bela jogada.

O técnico sueco, Lars Lagerbäck, saca Allbäck e põe Andersson, tira um atacante cansado e que pouco havia rendido no jogo para pôr um atacante fresco no lugar do camisa 10 da seleção. Em seguida, Bruno Metsu também faz uma troca, tirando o defensor Papa Malick Diop para pôr outro defensor no lugar, Habib Beye.

Senegal tem uma falta para cobrar, na entrada da grande área, Diouf na bola, ele bate de pé direito, a bola passa sobre a barreira, mas não vai tão no canto, Diouf obriga Hedman a mandar a bola para escanteio. No escanteio, nada acontece e a Suécia retoma a bola. Lagerbäck vai mexer de novo no time, vai sacar Alexandersson para colocar Zlatan Ibrahimović, hoje mundialmente conhecido, mas que na época era apenas um jovem promissor de vinte anos.

Ibrahimović já mostra a que veio, recebe a bola pelo lado direito senegalês, deixando Coly na saudade, o grandalhão invade a área, dribla a marcação do capitão senegalês, Cissé, e, sem muito ângulo, chuta para o gol, Sylva defende e a bola vai para a linha de fundo. Podemos dizer que Ibrahimović perdeu uma chance, afinal Larsson estava passando do outro lado, talvez com um pouco de calma, ele pudesse ter passado para Larsson definir. Enfim, este foi o último lance de grande perigo do jogo. Fim de papo nos 90 minutos, a partida terminou empatada e iríamos para a prorrogação.

Nas Copas do Mundo de 1998 e 2002 a prorrogação era na base do “gol-de-ouro”, ou seja, a prorrogação era dois tempos de quinze minutos, mas a seleção que fizesse o gol primeiro, era declarada a vencedora da partida. Cada ataque poderia ser o último. Esta regra tinha como fundamento deixar as equipes mais ofensivas e saírem ao ataque para buscar o gol, mas, na prática em geral, as equipes tinham a ficar mais defensivas e com medo de tomar o gol, sendo um dos grandes motivos para tal regra ser abolida.

Prorrogação, começa a “morte-súbita”, a primeira prorrogação da Copa do Mundo de 2002. A Suécia quem vem primeiro, cruzamento de Mellberg na área, Larsson desvia, a zaga se mantém, Tony Sylva sai do gol tentando afastar e dividindo com Ibrahimović, a bola volta para Larsson, que passa para Svensson chutar e Sylva defende, mas o lance já estava parado, com o árbitro marcando falta de Ibra no goleiro de Senegal.

El Hadji Diouf: o grande destaque senegalês

El Hadji Diouf: o grande destaque senegalês

Agora o Senegal parte, com Amdy Faye, que avança sozinho e chuta de longe, relativamente muito longe. A bola passa por cima do gol sueco. Os suecos vêm de novo, Mellberg pelo lado-direito, cruza na área para Magnus Svensson, que vira e enfia a bola para Ibrahimović, mas Coly corta, só que a bola sobrou na entrada da área para Anders Svensson, que domina, mete um belíssimo giro em Diatta e chuta para o gol… uma bomba… na trave! A bola vai na trave e segue no jogo, em seguida vai para a linha de lateral. A Suécia chegava muitíssimo perto de um golaço, um verdadeiro gol-de-ouro, mas a trave salvou o Senegal.

Depois deste enorme susto, Senegal vem para cima com ele, Diouf, pelo lado direito sueco. Ele enfrenta marcação de Linderoth e de Mellberg. Ele corta Linderoth e mete a bola entre as pernas de Mellberg, que jogada! Mas na hora de finalizar, chutou muito mal, mais uma grande jogada senegalesa que não era aproveitada em gol.

O Senegal vem de novo! Com bons passes e dribles, Pape Thiew está com a bola, marcado sob pressão pelos suecos, ele segue pela linha do lateral e passa de calcanhar para Henri Camara, que recebe livre, carrega, avança, Camara dribla a marcação de Jakobsson e invade a área livre, cara-a-cara com Hedman, Camara chuta de perna esquerda… goooooooool! Gol-de-ouroooo! Camara chuta bem no cantinho, a bola toca na trave e entra, sem chances para Hedman! É o gol que acabava com o jogo, que mandava a Suécia de volta pra casa e colocava os senegaleses, estreantes em Copas do Mundo, nas quartas-de-final do torneio! Senegal já estava entre as oito melhores seleções da Copa com este gol no último minuto do primeiro tempo da prorrogação.

PÓS-JOGO

Acabava o jogo, Camara tirou a camisa pra comemorar, correu para todos os lados com os companheiros, um golaço que coroava mais do que nunca uma das grandes “zebras” daquela Copa do Mundo, talvez a maior delas. Nas quartas-de-final, Senegal foi eliminada, sofrendo do mesmo “veneno” que deu para Suécia, perdendo para outra “zebra” daquela Copa do Mundo, a Turquia, perdendo por 1×0, sofrendo um gol de İlhan Mansız aos quatro minutos do primeiro tempo da prorrogação.

Henri Camara comemora o seu segundo gol no jogo, o gol-de-ouro de Senegal. Dioup está ao fundo.

Henri Camara comemora o seu segundo gol no jogo, o gol-de-ouro de Senegal. Diouf está ao fundo.

E esta foi a décima-primeira edição do Jogos “Inenarráveis” aqui no blog do Goleiro de Aluguel! Espero que vocês tenham gostado deste artigo, que abordou um dos grandes jogos da Copa do Mundo de 2002, em que os estreantes senegaleses garantiram uma vaga nas quartas-de-final daquele mundial ao vencer a talvez não tão excepcional em termos técnicos, mas com grande qualidade e tradição que é a Suécia. Semana que vem, o quadro volta abordando mais um jogo daqueles de tirar o fôlego de qualquer um, até!

MELHORES MOMENTOS: