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Entrando com o Pé Direito no Paraíso

“O torneio mais moralizador da terra” é assim que carinhosamente conhecemos a Libertadores, trazendo o mais profundo do “futebol raiz”: emoções à flor da pele, carrinho por trás, cachorros dentro do campo, quero-quero dando rasante, torcedores loucos, brigas, confusões, sinalizadores… enfim, Libertadores é recheada de histórias, rivalidades e tradições, tem enorme magnitude e premia o melhor time da América do Sul.

O Cruzeiro tem muita história para contar na Libertadores, afinal já ganhou o torneio duas vezes, além de possuir dois vice-campeonatos. Em 1997, a raposa sofreu e teve que suar sangue, mas o título veio e a partida decisiva você confere abaixo.

Os mineiros chegavam pela terceira vez a uma final de Libertadores em 1997, enquanto o Sporting Cristal chegava a  uma final de Libertadores pela primeira vez, sendo que era a segunda vez que um time peruano chegava a uma final deste torneio, antes, somente o Universitario disputou o título em 1972, mas perdeu a final para o Independiente.

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CAMINHO DAS DUAS EQUIPES ATÉ O JOGO

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Até 1999 apenas os campeões nacionais de cada país participavam da Libertadores (no caso do Brasil, apenas o campeão brasileiro e o campeão da Copa do Brasil disputavam a Libertadores no ano seguinte), ou seja, cada país participante enviava dois times, além disto, o atual campeão participava, entrando diretamente nas oitavas-de-final. Os outros times eram divididos em cinco grupos com quatro equipes cada, aonde os três primeiros colocados de cada grupo se classificavam para o mata-mata, para as oitavas-de-final (cada grupo tinha duas equipes de um país), aonde teríamos jogos de ida e volta entre as equipes até a finalíssima.

SPORTING CRISTAL: a equipe peruana caiu no grupo 04, junto com Allianza Lima, Grêmio e Cruzeiro. O Sporting Cristal terminou em terceiro lugar no grupo, após vencer dois jogos (1×0 contra Grêmio e Cruzeiro, ambos em casa), empatar dois (0x0 dentro de casa e 1×1 fora de casa, ambos os jogos contra o Allianza Lima) e perder dois jogos (ambos fora de casa, 2×0 para o Grêmio e 2×1 para o Cruzeiro), classificando-se para a fase eliminatória.

Nas oitavas, o Sporting Cristal bateu o Vélez Sarsfield, após empate em casa, no Estádio Nacional, com isto, foram até a Argentina buscar a classificação, vencendo por 1×0. Nas quartas-de-final, eliminaram o Bolívar, após perder a ida fora de casa por 2×1 e vencer em casa por 3×0. Já nas semifinais, passaram pelo Racing Club de Avellaneda, em mais uma virada, aonde perderam ida na Argentina por 3×2 e reverteram o resultado em casa, vencendo por 4×1, chegando a grande final. Na primeira partida, no Peru, 0x0, agora a  grande decisão seria no Mineirão.

CRUZEIRO: conforme já dito anteriormente, o Cruzeiro caiu no mesmo grupo do adversário da final. Se classificaram para o mata-mata após terminarem em segundo lugar no grupo, após uma arrancada heroica, pois perderam as três primeiras partidas no grupo (dentro de casa por 2×1 para o Grêmio, seguido de duas derrotas fora de casa por 1×0, primeiro para o Allianza Lima e depois para o Sporting Cristal), mas a raposa se reergueu e venceu os três jogos restantes do grupo (1×0 fora de casa contra o Grêmio e duas vitórias em casa, primeiro um 2×0 sobre o Allianza Lima e depois venceu por 2×1 o Sporting Cristal).

Nas oitavas-de-final, contra os equatorianos do El Nacional, após perder a ida fora de casa por 1×0 e vencer em casa por 2×1, a decisão foi para os pênaltis (na época não existia a regra do gol qualificado fora de casa), o Cruzeiro venceu por 5×3 e passou para às quartas, encontrando novamente os gremistas. Abateram os gaúchos vencendo a ida em casa por 2×0 e perdendo por 2×1 na volta. Outro sofrimento para o celeste foi nas semifinais, contra o Colo-Colo, em que venceu a ida em casa por 1×0, mas na volta, saiu perdendo, esboçou uma reação ao empatar, mas, no começo do segundo tempo, os cruzeirenses cometeram dois pênaltis nos chilenos, estavam perdendo por 3×1, conseguiram diminuir para 3×2, levando a decisão para a disputa de pênaltis, aonde brilhou a estrela de Dida, o “homem de gelo” pegou duas cobranças e foi o principal nome na vitória por 4×1 nos pênaltis, levando seu time para a grande final da Libertadores de 1997! Na primeira partida, o Cruzeiro martelou, tentou vencer o Sporting Cristal na altitude peruana, mas o jogo terminou empatado, agora a decisão seria em casa, no Mineirão.


O JOGO

libertadores 1997 cruzeiro x sporting cristal

Rola a bola no Mineirão, apita o árbitro argentino Javier Castrilli, é grande final da Libertadores de 1997. No dia 13 de agosto de 1997 tivemos o maior público da história da Libertadores, com 102.149 pessoas presentes para acompanhar a grande final, das quais 95.472 eram pagantes (este recorde pendura até hoje).

O Sporting Cristal tenta com Nolberto Solano chutando de longe, sem sucesso, afinal Dida era quem defendia as metas cruzeirenses. O Cruzeiro vem em seguida fazendo a jogada, faz a abertura com Nonato, ele lança na área para Elivélton, que recebe cara-a-cara com o goleiro Balerio, tenta encobrir o arqueiro do Sporting Cristal, mas a bola vai por cima do gol do time peruano.

Só dá Cruzeiro! O time brasileiro articula jogadas pelos lados, mas falta o toque final. Chega com perigo pelo lado esquerdo do time peruano, com Elivélton, que cruza na área para Wilson Gottardo, que não alcança o cabeceio, a bola passa por toda defesa do Sporting Cristal e chega para Marcelo Ramos, que não consegue completar.

Elivélton vem pela esquerda, cruza na entrada da área para Palhinha, Solano afasta. Não há ninguém do Sporting Cristal na sobra, a bola está livre e cai nos pés de Donizete, que manda uma bomba de pé direito, mas a bola passa por cima do gol, muito perto. E o primeiro tempo é isto, só deu raposa e o placar não saiu do zero.

O lado esquerdo dos peruanos é uma avenida, os mineiros jogam fácil, Wilson Gottardo recebe, passa para Elivélton que cruza na área, a zaga desvia, não consegue cortar e Marcelo Ramos vem “com muita vontade”, mandando a bola por cima.

Finalmente o Sporting Cristal pode criar perigo, tem uma falta perigosa para cobrar com Solano, que mete uma bomba furando a barreira cruzeirense, lá está Dida para defender, não segura, e a bola sobra para Julinho e Dida pratica um milagre no rebote. Como disse Galvão Bueno na narração “se o título vier, metade dele já tem dono, é do goleiro Dida. Grande defesa! A primeira já foi excelente, a segunda foi monumental!”.

Já são trinta minutos do segundo tempo, tem escanteio o Cruzeiro, vem bola na área! Cruzamento é feito, a zaga tira, sobra pra Elivélton que chuta com a direita, “a perna ruim”, o goleiro Balerio não segura. É o gol do bi da Libertadores, o Mineirão vem abaixo! A torcida não parava de gritar, os belos sinalizadores tomaram conta de todo o Mineirão, assim como as bandeiras em azul e branco.

Elivélton é o nome dele! Aos 30 minutos do segundo tempo, ele abre o placar para o Cruzeiro e para o Brasil na final da Libertadores. Sai para o abraço e assina o gol, Elivélton!

Elivélton é o nome dele! Aos 30 minutos do segundo tempo, ele abre o placar para o Cruzeiro e para o Brasil na final da Libertadores. Sai para o abraço e assina o gol, Elivélton!

Elivélton não havia jogado o primeiro jogo da final porque estava suspenso, e realmente voltava “com o pé direito” para a grande decisão! Era o décimo-quinto gol do time azul naquela edição do torneio e o primeiro de fora da área, afinal os outros catorze gols marcados haviam sido todos de dentro da área.

A torcida grita “bicampeão” e diferente do que se imagina, o Cruzeiro não catimbou, claro que prendeu a bola um pouco mais e segurou a posse, mas seguiu buscando o jogo e esteve muito próximo de marcar o segundo gol do que o Sporting Cristal empatar.

Nos acréscimos, Marcelo sai cara-a-cara com Balerio, ele dribla o goleiro com um chapéu, mas não conseguiu completar. Pouco tempo depois, o árbitro argentino Javier Castrilli encerra o jogo, o Cruzeiro é bicampeão da América do Sul!


PÓS-JOGO

A festa continuou por toda Belo Horizonte! Queima de fogos, bandeirões em azul e branco, sinalizadores, torcida emocionada!

Este jogo marcou uma despedida em grande estilo do meio-campo Palhinha, que foi para o Mallorca, da Espanha, e do treinador Paulo Autuori, que conquistava pela primeira vez a América; após este jogo, foi embora de BH para treinar o Flamengo.

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Foi um belo jogo de Libertadores, uma vitória suada e histórica do Cruzeiro, com muita raça e perseverança, um jogo vencido pelo placar mínimo, com um gol na raça e no coração. Ninguém saiu do Mineirão, para ver a festa do time e, aos gritos de “bicampeão”, os jogadores do Cruzeiro receberam as medalhas e, em seguida, o capitão cruzeirense, Wilson Gottardo, levantou a taça da Copa Libertadores de 1997!

JOGO COMPLETO: