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Quando um Lance Acaba com Sua Carreira

Após um período inativo, o Muralhas Lendárias volta ao Goleiro de Aluguel homenageando um dos mais memoráveis goleiros brasileiros que nos deixou recentemente, Waldir Peres é o nome dele, goleiro que marcou época no São Paulo, jogou três Copas do Mundo com a seleção brasileira (uma delas como titular) e depois virou treinador. Confira abaixo tudo sobre Waldir Peres.

Waldir Peres de Arruda, ou simplesmente, Waldir Peres, nasceu na pequena cidade paulistana de Garça em 2 de janeiro de 1951 e começara a carreira no Garça Futebol Clube Profissional. Ainda na base, despertou os olhos de um tradicional time de Campinas, a Ponte Preta, e por lá ficaria até se profissionalizar aos 19 anos em 1970.

Pela macaca, disputou quatro campeonatos paulistas (1970, 1971, 1972 e 1973) e apenas o Campeonato Brasileiro de 1970 (ainda com o nome de Torneio Roberto Gomes Pedrosa, vulgo “Robertão”). Com a macaca, Waldir Peres só participou de uma edição do Brasileirão, pois antes, para você se classificar ao Brasileirão, você tinha que se dar bem no estadual, coisa que, nestes quatro anos, a Ponte Preta só conseguiu em 1970 e 1973, terminando em terceiro lugar no Paulistão em ambas ocasiões.

Waldir Peres na Ponte Preta, no começo da carreira.

Waldir Peres na Ponte Preta, no começo da carreira.

O Paulistão de 1973 seria fundamental para Peres aspirar rumos maiores na carreira, afinal a Ponte Preta foi a sensação do campeonato, na segunda fase passou o primeiro turno invicto, derrotando grandes equipes como o Santos, Palmeiras e os rivais do Guarani, depois disto, o rendimento da equipe caiu, mas as boas atuações de Waldir despertaram interesse do São Paulo, que o contrataram para ser titular no Brasileirão de 1973.

Já no primeiro torneio com a camisa do tricolor paulista, quase se sagraria campeão. O São Paulo não foi tão bem na primeira fase, mas teve resultados mais do que suficientes para classificar para a segunda fase; o tricolor caiu no grupo B, onde os dois primeiros colocados de cada grupo (A e B) iriam para um quadrangular final. A equipe que somasse mais pontos neste quadrangular final, era a campeã. Na segunda fase, terminou em primeiro lugar e se classificou para o quadrangular do título. Neste quadrangular final, o São Paulo venceu o Inter de Limeira por 4×1 na primeira rodada e perdeu por 1×0 na segunda rodada. Na última rodada, precisava vencer de forma simples o Palmeiras para ser campeão, já ao verdão, o título viria com um empate; e os palmeirenses seguraram um empate sem gols, sagrando-se bicampeão.

O ano de 1974 foi magro para os são-paulinos, não foram muito bem no Paulistão e não foram longe no nacional. O marco maior foi para Waldir Peres, convocado para a Copa do Mundo de 1974, como terceira opção atrás de Émerson Leão e Renato, respectivamente. A princípio, Waldir Peres não seria convocado, mas como Wendel, um dos goleiros convocados, se lesionou às vésperas do mundial, Waldir Peres foi chamado para suprir a ausência dele.

As glórias maiores estavam reservadas para 1975, quando o São Paulo fez uma bela campanha e dominou o Campeonato Paulista, campanha que levou à final contra a Portuguesa. Com dois jogos, ambos no Morumbi, na ida (com dito mando da Portuguesa), o São Paulo venceu por 1×0 com gol de Pedro Rocha, na volta, um sufoco, a Portuguesa devolveu o placar mínimo aplicado pelo São Paulo no primeiro jogo e levou a decisão para os pênaltis, aonde Waldir Peres brilhou, defendendo as cobranças de Dicá e Tatá e ainda viu Wilsinho chutar por cima. Resultado: São Paulo venceu por 3×0 nos pênaltis e se sagrou campeão paulista pela décima vez na história do clube – este foi o primeiro título da carreira de Waldir Peres.

Waldir Peres defendendo a cobrança de Dicá.

Waldir Peres defendendo a cobrança de Dicá.

Sua primeira aparição debaixo das traves da seleção brasileira como titular foi 1975, em uma partida contra o Peru, na semifinal da Copa América daquele ano, com Brasil vencendo por 2×0. Nesta época, a Copa América não tinha uma sede de disputa, os jogos ocorriam no estádio de algum dos países do confronto e as partidas possuíam ida e volta. A semifinal teve jogo de ida em Belo Horizonte, com uma seleção composta basicamente por jogadores de times mineiros, o Brasil perdeu por 3×1; na volta, em Lima, com uma seleção reforçada após a surpreendente derrota (a começar com Waldir Peres no gol) o Brasil venceu por 2×0; com os placares iguais, um sorteio no cara-ou-coroa decidiu quem iria para a final e os canarinhos perderam. Após este fracasso surpreendente, a CBF decidiu que o Brasil disputaria as próximas Copas América com o time principal.

Em 1976, vários títulos com a seleção brasileira viriam parar na conta de Waldir Peres! O goleirão disputou um torneio que valia por quatro, a Taça do Atlântico, junto com Argentina, Paraguai e Uruguai. Em paralelo a este torneio, a seleção brasileira disputou a Copa Roca (torneio entre Brasil e Argentina), Taça Oswaldo Cruz (torneio entre Brasil e Paraguai) e Taça do Rio Branco (torneio entre Brasil e Uruguai). Os resultados que ocorressem na Taça do Atlântico valeriam para os demais respectivos torneios. Aconteceu que o Brasil ganhou os dois jogos do Paraguai e os dois jogos contra a Argentina. Contra o Uruguai, o Brasil empatou uma partida e venceu a outra, ou seja: a seleção brasileira ganhou estes quatro (inúteis, mas simbólicos) torneios.

Em 1977, o São Paulo foi eliminado no terceiro turno do estadual para o Corinthians, que foi campeão paulista, um título histórico que tirou o coringão de uma fila de 22 anos. Mas haviam glórias maiores ao São Paulo, reservadas no Brasileirão: o tricolor caiu no grupo B junto com outras nove equipes e passou para a segunda fase ao terminar em segundo lugar na chave, após seis vitórias, dois empates e uma derrota. Na segunda fase, caiu no grupo G, junto com Corinthians, America do Rio, Internacional e Brasília, e após duas vitórias, um empate e uma derrota, passou para a terceira fase, se classificando em segundo lugar no grupo. Nesta fase ficou no grupo U, junto com Grêmio, Botafogo de Ribeirão Preto, Ponte Preta, Sport e XV de Piracicaba, passando em primeiro lugar, após quatro vitórias e uma derrota. Isto fez com que o São Paulo classifica-se para às semifinais, enfrentando o Operário de Campo Grande, vencendo a ida no Morumbi por 3×0, e derrotados no Mato Grosso do Sul por 1×0, que não foi suficiente para tirar a vaga para a grande final!

No dia 5 de março de 1978 aconteceu a final, em jogo único, no Mineirão, entre São Paulo e Atlético Mineiro (sim, o Campeonato Brasileiro de 1977 só foi decidido no ano seguinte). Em um Mineirão com mais de 100.000 pessoas, alvinegros mineiros e tricolores paulistas fizeram um jogo de igual para igual, que terminou empatado sem gols e a decisão iria para os pênaltis, então brilhou a estrela, ou melhor, a catimba de Waldir Peres, que provocou e desestimulou os batedores adversários sempre que pôde: Peres viu João Leite parar duas cobranças tricolores, mas não deixou por menos, provocou os adversários antes das penalidades, pressionou-os, e viu Toninho Cerezo, Joãozinho Paulista e Márcio chutarem para fora. O São Paulo vencera por 3×2 nos pênaltis e foi campeão brasileiro pela primeira vez na história do clube!

Curiosidade: Waldir Peres catimbou muito contra os batedores do galo, mas o mais marcante foi contra Márcio que se encarregou de cobrar a última penalidade da série de cinco para o galo e precisava converter o chute para o Atlético Mineiro continuar vivo, se errasse o São Paulo era campeão. O goleiro caminhou ao lado do adversário, provocando-o, falando que iria errar e, antes de ir para o gol, teve a audácia de passar a mão na bunda de Márcio. Tudo deu certo. Ele desconcentrou Márcio, que bateu pra fora.

A catimba de Waldir Peres sobre Márcio, defensor do Atlético Mineiro.

A catimba de Waldir Peres sobre Márcio, defensor do Atlético Mineiro.

Em 1978, Waldir Peres iria disputar a segunda Copa do Mundo da carreira, agora como segunda opção, mais uma vez, reserva de Émerson Leão.

Já em 1979, disputou apenas o Campeonato Paulista com o São Paulo, não obtendo classificação às semifinais. O São Paulo ficou de fora do Campeonato Brasileiro em 1979, pois os times que disputariam o Torneio Rio-São Paulo de 1979 (que sequer teve) iriam entrar na segunda fase daquele Brasileirão, entretanto tais times pleitearam que o correto seria que eles já entrassem na terceira fase do torneio, assim como o campeão e vice do Brasileirão de 1978 (Guarani e Palmeiras, respectivamente) o que não foi atendido pela CBD. Resultado desta decisão foi que o São Paulo não participou deste Brasileirão de 1979, assim como o Corinthians, a Portuguesa e o Santos.

Em 1980, Waldir Peres iria se sagrar campeão paulista com o São Paulo pela segunda vez: após seu time deixar um pouco a desejar no primeiro turno, o tricolor paulista foi o melhor time do segundo turno e campeão na final em cima da Ponte Preta. Com isto, os tricolores disputaram uma finalíssima com o campeão do primeiro turno (Santos) e foram campeões após vencerem os dois jogos por 1×0.

Ainda em 1980, Telê Santana virou técnico da seleção brasileira e o “mestre Telê” bancou Waldir Peres como titular absoluto da nossa seleção, algo que custaria caro.

Assim como em 1980, em 1981 o São Paulo levou o estadual, se reerguendo e sendo campeão no segundo turno. Foi campeão ao vencer a saudosa Ponte Preta na final, empatando o primeiro jogo fora de casa em um gol e vencendo por 2×0 a volta.

Ainda em 1981, o arqueiro deixou uma marca muito positiva na seleção brasileira e na própria carreira, quando ele realmente se firmou como titular. O Brasil já estava classificado para o Mundial na Espanha e começou a fazer uma série de amistosos preparatórios para aquela Copa e o mais marcante foi um jogo contra a Alemanha. Faltando dez minutos para o jogo terminar e com o jogo em 2×1 para o Brasil, o zagueiro Luisinho cortou um cruzamento de Rummenigge com a mão, pênalti para os alemães e Paul Breitner iria para cobrança. Breitner, até então, nunca havia perdido um pênalti na carreira, e Waldir Peres se encarregou de quebrar a sina, defendendo o chute. Entretanto, o juiz da partida, Clive White, mandou voltar a cobrança, alegando que Peres havia se adiantado. Na segunda tentativa, outra defesa do goleiro, agora validada pelo árbitro.

Bancado por Telê Santana, Waldir Peres seria o goleiro titular da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1982, contra tudo e contra todos, afinal era de consenso da grande mídia que o titular deveria ser Émerson Leão, por estar em grande fase no Grêmio e pela experiência de já ter sido titular na Copa do Mundo de 1974. No final das contas, Leão sequer chegou a ser convocado.

Da esquerda para a direita: Paulo Sérgio, Waldir Peres e Carlos, goleiros da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982.

Da esquerda para a direita: Paulo Sérgio, Waldir Peres e Carlos, goleiros da Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1982.

O Brasil caiu no Grupo 06 da Copa do Mundo, junto com Escócia, Nova Zelândia e União Soviética. Na primeira partida, contra a União Soviética, o Brasil venceu de virada por 2×1, com dois golaços de Sócrates e Éder, o marcante deste jogo foi a falha de Waldir no gol soviético, num chute de Andriy Bal de muito longe. Depois disto, Waldir Peres fez uma Copa muito segura e não comprometeu a baliza brasileira em momento algum, mas bastou um lance para o crucificarem.

Nesta primeira fase, o Brasil venceu todos os jogos (2×1 contra a União Soviética, 4×1 sobre a Escócia e 4×0 sobre a Nova Zelândia). Com isto passou para a segunda fase, em um grupo junto com Itália e Argentina, vencendo los hermanos por 3×1, o Brasil precisava apenas de um empate para chegar às semifinais, mas perdeu por 3×2 para a Itália com o lateral-esquerdo Júnior falhando nos três gols italianos anotados por Paolo Rossi. Aquela geração de 1982, que apresentava um belíssimo futebol com grandes jogadores e encantou o mundo, foi eliminada da Copa contra a Itália no jogo conhecido como “Tragédia de Sarrià”.

Depois desta histórica e desastrosa partida contra a Itália, Waldir Peres nunca mais atuou pela seleção brasileira.

Pelo São Paulo, Waldir Peres seguiu por mais dois anos. Após onze anos no tricolor paulista, rumou ao America do Rio de Janeiro. Peres, até então, havia sido o jogador que mais havia vestido o manto tricolor, com 617 jogos; hoje em dia, ele é o segundo jogador que mais vestiu a camisa do São Paulo, perdendo apenas, obviamente, para o Rogério Ceni, que possui 1238 jogos com a mesma camisa.

Do America chegou a jogar pelo Guarani, até se firmar, em 1986, no Corinthians, um dos maiores rivais do São Paulo. Ele começou na reserva do Carlos, um goleiro que havia sido reserva de Waldir Peres na Copa de 82, mas que agora era titular absoluto tanto da seleção brasileira quanto no Corinthians. Em 1987, Waldir virou titular corinthiano e participou de uma arrancada histórica no Campeonato Paulista, tirando seu time da vice-lanterna no primeiro turno e chegando à final contra o São Paulo (o Corinthians seria vice-campeão). No mesmo ano, disputou o Campeonato Brasileiro com o Corinthians, que não foi bem e terminou na última colocação do grupo tanto no turno quanto no returno.

Ao final daquele ano, Waldir comprou o próprio passe por Cz$764.000 e estava sem contrato com o Corinthians. Chegou a jogar pela Portuguesa e pelo Santa Cruz em 1988 e em 1989 voltou para a Ponte Preta, encerrando a carreira no primeiro clube que jogou enquanto goleiro profissional. Depois de aposentar as luvas, Waldir Peres tentou a carreira de treinador, mas não obteve o sucesso que teve dentro de campo.

Waldir-Peres-reprod-Youtube

Neste passado domingo (23 de Julho de 2017), Waldir Peres morreu aos 66 anos em Mogi Mirim vítima de um infarto fulminante, ele estava saindo de um almoço e iria para uma festa de aniversário, entretanto sofreu este ataque e não resistiu. Peres nunca havia sintomas de infarto, sequer tinha problemas de saúde.

E esta foi a quadragésima-segunda edição do Muralhas Lendárias aqui no blog do Goleiro de Aluguel. Espero que vocês tenham gostado desta singela homenagem a Waldir Peres. Até a próxima!

FINAIS DO CAMPEONATO PAULISTA DE 1975:

SÃO PAULO 0 (3) x (2) 0 ATLÉTICO MINEIRO – FINAL DO CAMPEONATO BRASILEIRO DE 1977 (JOGO COMPLETO):

BRASIL 2 x 1 ALEMANHA – AMISTOSO INTERNACIONAL EM 1981 (DEFESAS DE WALDIR PERES NOS PÊNALTIS DE PAUL BREITNER):

BRASIL 2 x 1 UNIÃO SOVIÉTICA – COPA DO MUNDO DE 1982 (GRUPO F – 1ª RODADA):