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Ser ou Não Ser? Eis a Religião

Bom, por falar em religião, podemos dizer que, pela primeira vez, este quadro vem a cometer uma bela “heresia” nesta trajetória já de sete artigos, mas por que “heresia”? Pois hoje é a primeira vez que um goleiro argentino será homenageado aqui no quadro, garanto que não será a última, pois em toda história argentina tivemos vários lendários goleiros como Abbondanzieri, Burgos, Goycochea e a muralha escolhida de hoje: Carlos Roa.

Carlos Ángel Roa, ou Carlos Roa, ou simplesmente Roa, nasceu em 15 de Agosto de 1969 na cidade argentina de Santa Fé; assim como Ricardo (goleiro português homenageado na terceira edição do quadro), Roa também começou na base como atacante e queria ser o pesadelo dos goleiros, mas com o tempo percebeu que tinha mais vocação para ser goleiro e acabou exercendo função debaixo das traves, aonde iria fazer história.

Carlos Roa estreou profissionalmente pelo Racing Club de Avellaneda, da primeira divisão argentina no ano de 1988, quando tinha apenas 19 anos. Pelo Racing, Roa viria a atuar por cinco temporadas, aonde na Primera División nunca iria passar da chamada “zona do agrião” com o Racing, sempre terminando no meio da tabela nas temporadas disputadas no campeonato nacional. O primeiro jogo oficial de Roa foi em uma vitória do Racing por 2×1 sobre o River Plate, em que ele entrou no jogo após o goleiro titular (e também lendário) Fillol ter sido expulso (Fillol foi um goleiro argentino que disputou três Copas do Mundo com a seleção principal e se sagrou campeão em uma das oportunidades, em 1978).

Entretanto, Roa viria a ganhar o primeiro título dele como profissional ainda pelo Racing, pois o time de Avellaneda disputou em 1988 a extinta Supercopa Libertadores, em que o Racing se classificou porque havia sido campeão da Copa Libertadores em 1967, afinal neste torneio só participaram todas as equipes que já haviam sido campeãs da Libertadores até então (as equipes brasileiras que já haviam ganho a Libertadores até 1988 e que participaram deste torneio foram: Cruzeiro, Grêmio, Flamengo e Santos). Na primeira fase, o Racing eliminou o Santos após vencer em casa por 2×0 e empatar sem gols fora. Pela chave e regulamento, o Racing foi direto às semifinais do torneio, aonde eliminou os conterrâneos argentinos do River Plate após vencer por 2×1 em casa e empatar fora por 1×1. A final foi contra o Cruzeiro e o Racing repetira o que havia feito contra o River Plate sobre os cruzeirenses, vencendo em casa por 2×1 e empatando em um gol fora de casa, se sagrando campeão. Roa “acompanhou de camarote”, afinal Fillol era o titular absoluto do Racing na altura enquanto Roa era apenas um novato e ficou na reserva.

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Ainda pelo Racing, Roa atuou pela seleção Argentina sub-23 em 1992 e ainda acabara contraindo malária, afinal durante uma excursão do clube de Avellaneda na África, Roa contraiu e foi vítima da doença e do perigoso parasita. Entretanto, quando Roa se curou e se recuperou totalmente da doença, transferiu-se para o Lanús, em 1994, aonde atuara por mais três anos. Jogando a Primera División, chegara duas vezes ao terceiro lugar com o Lanús, mas nunca conseguiu disputar uma Libertadores da América.

Pelo Lanús, Roa ganharia o apelido que o acompanharia ao restante da carreira, recebendo a alcunha de “lechuga”, que significa “alface” traduzindo para nossa língua portuguesa. Um apelido, convenhamos, não muito bom para um goleiro, pois parecia que o mesmo era um “frangueiro”, ou um “mão de alface”, mas, na verdade, este apelido se deu a porque ele era vegetariano, ou seja, não comia nenhum alimento derivado de carne animal, algo, por sinal, bastante incomum no meio do futebol.

Roa cresceu junto com o elenco do Lanús que, como dito anteriormente, chegou a incomodar e a obter boas colocações na primeira divisão argentina. As boas atuações e o desempenho de Roa fizeram com que olhos internacionais o rondassem, despertando o interesse do Mallorca da Espanha, clube pelo qual viria a se transferir no ano de 1997. Antes de sair do Lanús, Roa marcaria um gol de pênalti em um jogo contra o Vélez Sársfield, válido pelo Torneo Clausura da Primera División: o mais curioso é que o gol marcado por Roa foi contra o paraguaio Chilavert, bastante conhecido por fazer gols em bolas paradas, fossem pênaltis ou faltas.

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Roa pelo Mallorca faria a carreira e logo em 1998 disputara a final da Copa Del Rey contra nada mais nada menos que o poderoso Barcelona de Figo e Rivaldo. O Mallorca saiu ganhando logo aos seis minutos do primeiro tempo com um gol de Stanković e Roa ainda salvara o Mallorca no primeiro tempo, mas na segunda etapa, Roa fora vencido após uma bela jogada catalã, com gol de Rivaldo. A partida foi para a prorrogação, aonde o jogo continuou empatado e foi para os pênaltis: na série de cinco cobranças, Roa defendera os pênaltis de Rivaldo e Celades, mas não foi suficiente, pois pelo lado do Mallorca, Rocha chutara para fora e Campo pararia no goleiro Hesp, Roa ainda bateu e converteu a última penalidade da série de cinco antes das cobranças alternadas. Na “morte súbita” ele defendeu o chute Figo, mas Stanković chutou para fora e posteriormente Eskurza chutou em cima de Hess, fazendo com que o Barcelona fosse o campeão daquela edição. No mesmo ano, Roa, ao menos, seria campeão da Supercopa da Espanha, ao derrotar o mesmo Barcelona por 3×1 (a Supercopa da Espanha é disputada entre o vencedor da La Liga e da Copa Del Rey, mas como o Barcelona ganhou ambos os torneios, o Mallorca disputou por ter sido vice da Copa Del Rey e venceu em uma daquelas ingratidões do futebol).

A chegada ao Mallorca fez com que Roa tivesse oportunidades na seleção principal da Argentina, sendo convocado a partir de 1997 e disputando a Copa América naquele mesmo ano, sediada na Bolívia e Roa foi o goleiro titular da Argentina no torneio. Os argentinos caíram no Grupo A, junto com Equador, Chile e Paraguai, empatando com o Paraguai em 1×1, com o Equador sem gols e ganhando do Chile por 2×0; isto fez com que os hermanos se classificassem para a fase final em segundo, mas foram eliminados logo nas quartas-de-final do torneio, após perderem por 2×1 para o Peru. O Brasil seria o campeão desta edição da Copa América, ganhando a final por 3×1 dos bolivianos, donos da casa.

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Curiosidade: Roa utilizou a camisa número 19 na Copa América de 1997, afinal a numeração da Argentina não foi atribuída de acordo com a posição de cada jogador, e sim atribuída conforme ordem alfabética. Dentre os 22 jogadores convocados pelo técnico Daniel Passarella nesta Copa América, quatro eram goleiros (sendo Roa e mais três) e por sinal o “camisa 10” argentino era o goleiro reserva González.

Um ano depois, Daniel Passarella continuara no cargo de técnico da Argentina e viria convocar Roa para a Copa do Mundo de 1998, sediada na França, esta seria a primeira (e também a única) Copa do Mundo disputada pela nossa muralha de hoje. A Argentina não viria com forças totais para aquela Copa do Mundo, visto que o metódico Daniel Passarella não convocou dois craques argentinos para aquele torneio, sendo eles o volante Fernando Redondo, que jogava no Real Madrid e é considerado um dos melhores da história na posição, e o matador Caniggia, que jogava no Boca Juniors. Por que Daniel Passarella não os convocou? Lesão? Problemas pessoais? Não, o técnico argentino impôs regras para convocar jogadores, sendo que entre elas consistiam em que os jogadores não poderiam ter cabelos longos, com a justificativa que grandes madeixas atrapalhavam o desempenho; esta exigência fez com que o metódico (e insensato) Daniel Passarella não convocasse Caniggia e Redondo, o mesmo Passarella só convocou o também craque Batistuta porque este aceitou cortar o cabelo. O pior de tudo é que Passarella foi campeão pela seleção argentina na Copa do Mundo de 1978 como um capitão, cabeludo e que fumava muito antes dos jogos, tornando-o um péssimo exemplo, exigindo aquilo que o mesmo não era dos jogadores convocados e recebendo diversas e duras críticas da imprensa argentina.

Passado as polêmicas envolvendo o insensato Daniel Passarella que a torcida corinthiana tanto o “ama”, a Argentina viria a disputar aquela Copa do Mundo com Roa sendo o goleiro titular. Na fase de grupos, Roa não sofreu nenhum gol sequer: a Argentina caiu no grupo H juntamente com Croácia, Jamaica e Japão, ganhou pelo placar mínimo de 1×0 do Japão e da Croácia (que viria a ser a grande surpresa desta Copa do Mundo), além de aplicar 5×0 na Jamaica, se classificando para a fase final. Nas oitavas-de-final, um jogo já relatado aqui no quadro na quarta edição, que abordou a carreira de David Seaman, a Argentina saiu ganhando com um gol de Batistuta, sofreu a virada e empatou com Zanetti, tudo no primeiro tempo; o jogo seguiu para a prorrogação e pênaltis: Crespo parou em Seaman, mas Roa seria o herói daquele jogo ao defender as penalidades de Ince e Batty, classificando a Argentina para as quartas-de-final, fase esta do torneio em que a Argentina fora eliminada da Copa do Mundo, perdendo de 2×1 para a Holanda, com um direito a um golaço de Bergkamp aos 45 do segundo tempo.

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Roa defendendo o pênalti de Batty nas oitavas-de-final da Copa do Mundo de 1998 contra a Inglaterra. Esta foi a última penalidade da disputa, fazendo com que Roa garantisse a Argentina nas quartas-de-final do torneio.

Sem dúvida nenhuma, esta época era a melhor na carreira de Roa, não só pelo momento em que ele vivia, mas, principalmente, porque o mesmo fez uma bela Copa do Mundo e estava com os olhos de vários clubes o rondando. De todos os clubes interessados, o principal era o Manchester United, aquele que talvez seja o maior time da Inglaterra e estava a procura de um goleiro para substituir o veterano (e também lendário) Peter Schmeichel, que viria a se aposentar em breve.

Suponhamos o seguinte: você joga por um clube tradicional, mas mediano, então um dos maiores clubes da história se interessa pelo seu trabalho e lhe oferece uma boa proposta. Você recusaria? Pois bem, Roa o fez, o Manchester United ofereceu uma proposta de US$10milhões para Roa, mas o lechuga não aceitou a proposta. Por que? (Agora todos entenderão o título do artigo) porque Roa era devoto da Igreja Adventista do Sétimo Dia, religião em que os fiéis se guardam a partir do pôr-do-sol de sexta-feira até o pôr-do-sol de sábado para louvar a Deus, o que impossibilitava que Roa conciliasse o trabalho debaixo das traves com a crença.

Depois de uma grande Copa do Mundo, Roa poderia seguir para grandes clubes do planeta, mas ele preferiu recusar as propostas por causa de crenças pessoais. Se Roa se sente feliz com isto, que seja, a vida é dele, a carreira é dele e se o mesmo prefere seguir com felicidade e em paz consigo mesmo preferindo a religião ao trabalho, que assim o faça, realize o que é bom para si. No final, Roa nem voltou ao Mallorca e nem seguiu a clube nenhum, decidiu aposentar as chuteiras e as luvas após a Copa do Mundo e com apenas 29 anos.

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Roa atuando pelo Mallorca usando a camisa “1.3”, homenageando a santíssima trindade: Deus Pai, Deus Filho e Espírito Santo; homenageando a um deus que ao mesmo tempo é três.

A aposentadoria de Roa não durara nem dois anos, afinal em Abril de 2000, o Mallorca exigiu que Roa terminasse de cumprir os anos restantes de contrato que ele tinha com o clube, voltando ao futebol profissional. Entretanto, Roa não conseguiu obter novamente os desempenhos que ele tinha antes da aposentadoria, isto fez com que o mesmo perdesse a titularidade para Leo Franco, outro goleiro argentino que atuava pelo Mallorca. Também vale lembrar que Roa aceitou cumprir o restante do contrato que faltava, mas ele entrou em acordo com a diretoria do Mallorca, aonde iria cumprir o restante do contrato sem exercer quaisquer atividades a partir do pôr-do-sol de sexta-feira até o pôr-do-sol dos sábados.

O contrato de Roa com o Mallorca se encerrou em 2002 e ele ainda continuou a jogar, saindo do Mallorca e assinando com o Albacete, time da segunda divisão espanhola. Roa conseguiu junto com o elenco do Albacete acesso à primeira divisão da Espanha, em que ele era o goleiro titular e assim seguiu até o início de 2004, quando teve de fazer mais uma parada de pouco mais de um ano na carreira devido à descoberta de um câncer nos testículos, tendo que passar por operações, quimioterapias e reabilitação.

Durante este período, Roa apenas treinou em equipes da terceira divisão espanhola, como o Atlético Baleares e o Constancia de Inca. Depois de curado do câncer e reabilitado, Roa voltou a atuar por um clube argentino, assinando com o Olimpo de Bahía Blanca, clube da primeira divisão argentina. Roa viria a atuar pelo Torneo Apertura de 2005 e o Torneo Clausura de 2006, aonde o clube terminou rebaixado e Roa se aposentou definitivamente dos gramados no final daquela temporada. Surgiram rumores que o Union de Santa Fe queria contratar Roa, mas tal fato não aconteceu e Roa passou a trabalhar em partes administrativas dos clubes, hoje ele mora no México e trabalha como treinador de goleiros do Chivas Guadalajara.

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Carlos Ángel Roa em 2016, foto oficial do site do Chivas Guadalajara)

Recentemente, Vitor, ex-goleiro do Londrina, virou manchete nos noticiários esportivos nacionais após ele se recusar a treinar e jogar aos sábados por decidir cumprir o que a religião adventista prega, isto fez com que o Londrina optasse por não renovar o contrato com ele e também que o treinador Claudio Tencati desse a titularidade ao reserva Marcelo Rangel. Roa foi entrevistado pela 1110AM Rádio Paiquerê de Londrina no Programa Paiquerê, ele parabenizou Vitor pela decisão.

E esta foi a sétima edição do quadro Muralhas Lendárias aqui no blog do Goleiro de Aluguel! A edição de hoje abordou talvez a carreira mais interessante, “estranha” e com coisas extra futebol, aonde a religião influenciou na carreira da muralha abordada, em que Roa seguiu o coração dele e preferiu a religião ao futebol. Semana que vem o quadro voltará abordando a carreira de mais uma muralha; não deixe de acompanhar o projeto, o blog e o quadro, até sexta-feira que vem, dia 29!

Entrevista de Roa à Rádio Paiquerê

Inglaterra 2(3)x(4)2 Argentina pelas oitavas-de-final da Copa do Mundo de 1998: