Profissão: Reserva

Goleiro, um guardião solitário dentro dos gramados, mas nos clubes e fora das quatro linhas há sempre os coadjuvantes substitutos que estão lá, prontos para entrar em ação e substituir o titular caso aconteça alguma coisa. Os reservas estão lá, apenas esperando a oportunidade para brilhar um dia e tomar a vaga única do time para si… Ou podem fazer nome sendo o reserva de sempre, como o caso de Roger Noronha, ou simplesmente Roger, o goleiro homenageado aqui no quadro nesta sexta-feira.

Ser goleiro já é uma posição ingrata, imagina só para aquele guarda-redes que esquenta o banco para um outro goleiro. Roger não aparentava ter problemas com isto, afinal sempre foi o “eterno reserva” nos clubes no qual passou, nunca deixando de ser um grande goleiro apesar desta condição. Nascido na cidade carioca de Cantagalo em 23 de Julho de 1972, Roger começou na base do Flamengo em 1985 e a carreira profissional começara também no Mengão, em 1991, como reserva do goleiro, pilantra e cinegrafista, Gilmar Rinaldi (por que “pilantra”? Basta ver as façanhas que este cartola aprontou enquanto coordenador de seleções na CBF. E por que “cinegrafista”? Pois bem, o baixinho Romário explica pra vocês, clique aqui para saber).

À sombra de Gilmar, Roger foi campeão do Campeonato Carioca em 1991 além de ter sido campeão do Campeonato Brasileiro de 1992 (o que ninguém sabe: o Flamengo foi tetra ou foi penta campeão neste ano?). Roger passara os anos de 1991, 1992 e 1993 na reserva de Gilmar e sem muito uso, acabou sendo emprestado ao Vitória da Bahia no ano de 1994 e por lá ficou apenas aquele ano, voltando ao Flamengo no ano seguinte já como titular (Gilmar havia se transferido para o Cerezo Osaka, do Japão) e com a missão de ganhar um título junto com o elenco flamenguista em 1995, ano do centenário do alvinegro carioca.

A missão do Flamengo era ganhar um título no ano do centenário, e já começaram falhando no estadual de 1995, quando chegaram à fase final logo com três pontos de bonificação de acordo com a campanha e os regulamentos da época. O Flamengo precisava de apenas um empate com o Fluminense na última rodada para ser o grande campeão estadual. Saiu perdendo por 2×0 para o Flu, mas conseguiu empatar o jogo; o título parecia certo, até que, aos 42 do segundo tempo, Renato Gaúcho marca aquele famoso gol de barriga sobre Roger e dá o título ao Fluminense.

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Time do Flamengo que disputou o Campeonato Carioca de 1995

Com isto, o então presidente do Flamengo, Kléber Leite, resolveu abrir ainda mais os cofres do Flamengo para trazer alguma conquista, visto que já tinha arregaçado as contas do clube trazendo simplesmente Romário, aquele que até então estava no Barcelona e era o melhor do mundo; resolveu trazer também Edmundo, para compor ataque com Romário e Sávio, além de outros jogadores que entre eles incluía o goleiro Paulo César, que fora eleito o melhor goleiro do Brasileirão de 1994 enquanto atuava na Portuguesa. O Flamengo, até então, contava apenas com o ainda novato Roger, até porque os outros goleiros (Emerson, Adriano e Fábio Noronha) não inspiravam confiança, mas agora contava com, em tese, o melhor goleiro do Brasil; Roger, mais uma vez, se tornara reserva no Flamengo.

Paulo César jogou apenas aquele ano fracassado pelo Flamengo, que fizera um péssimo Campeonato Brasileiro, foi vice-campeão da Supercopa Libertadores (torneio existente entre 1988 até 1997, disputado por todos os times campeões da Libertadores até então) perdendo a final para o Independiente e na Copa do Brasil, o Flamengo fora eliminado nas semifinais da Copa do Brasil para o Grêmio: o Flamengo passou em branco no ano do centenário.

No ano de 1996, Paulo César iria sair do Flamengo e rumar ao Guarani, Roger iria voltar a ter as titulares do Mengão consigo. Neste ano ele ganhou seu primeiro título como goleiro titular de um clube, sendo que o Flamengo ganhou o Campeonato Carioca de 1996 com folga, sendo campeão da Taça Guanabara (primeiro turno) e da Taça Rio (segundo turno), não tendo necessidade de outras finais. Neste mesmo ano, o Flamengo também fora campeão da Copa Ouro Sulamericana (torneio realizado entre o campeão da Copa Libertadores, da Copa Conmebol, da Supercopa Libertadores e da Copa Master Conmebol de um ano antes. O Independente, campeão da Supercopa Libertadores de um ano antes, desistiu do torneio e foi substituído pelo Flamengo, o vice); o Flamengo foi campeão após vencer o Rosário Central por 2×1 e depois o São Paulo na final por 3×1. Nas competições nacionais, o Flamengo repetira os feitos de um ano anterior: não fizera um bom Campeonato Brasileiro e fora eliminado nas semifinais da Copa do Brasil, desta vez aos futuros campeões do Cruzeiro.

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Foto de Roger como goleiro do Flamengo em 1996. Esta foto foi utilizada no cromo dele do álbum de figurinhas oficial do Campeonato Brasileiro de 1996.

Em 1997, a lenda do São Paulo, Zetti, estava de saída do tricolor paulista para rumar ao Santos e à procura de um substituto, o São Paulo foi atrás de Roger no Flamengo e conseguiu a contratação dele. Entretanto, o próprio São Paulo tinha um goleiro que era o reserva de Zetti e estava querendo a vaga também, este goleiro era nada mais nada menos que Rogério Ceni, que pegou a vaga para si e neste mesmo ano, além de ter se tornado titular do São Paulo, fez o primeiro dos 132 gols na carreira.

Ou seja, pelo São Paulo, Roger seria o reserva de mais um goleiro, ou melhor dizendo, seria um dos vários reservas da carreira do mito Rogério Ceni. Roger ficou oito anos no São Paulo, e até chegou a ser emprestado para o Vitória da Bahia (de novo) em 1999 e para a Portuguesa em 2000: no Vitória foi campeão baiano atuando como titular no estadual*, mas seguira na reserva do também lendário Fábio Costa no decorrer da passagem e na Portuguesa foi titular no ano 2000, retornando ao São Paulo em 2001 para continuar na reserva de Rogério Ceni.

*O Campeonato Baiano de 1999 só teve um campeão decretado apenas em 2005. A final seria um Ba-Vi, em que o Bahia venceu a ida na Fonte Nova por 2×0; a volta seria no Barradão, estádio do Vitória, mas o time tricolor não entrou em campo devido o mesmo ter movido uma ação, alegando que o recém-reformado Barradão não oferecia segurança necessária, esta decisão foi acatada pela Justiça e o jogo não aconteceu. Anos depois, no tribunal, o título foi divido entre Bahia e Vitória, ambos foram declarados vencedores do estadual, algo inédito no Campeonato Baiano.

Antes de ser emprestado para Portuguesa em 2000, Roger voltara ao São Paulo e causou um grande marco, mas também a maior polêmica da carreira: em outubro de 1999 ele aceitou o convite da revista gay G Magazine para posar nu. O caso rendeu uma grande polêmica e o então técnico do São Paulo, Paulo César Carpegiani, não gostou nada da ideia, chegando a afastar Roger Noronha do elenco são-paulino e quase demitir ele.

Capa da revista G Magazine de Outubro de 1999, edição em que o goleirão Roger Noronha posou nu para a revista.

Capa da revista G Magazine de Outubro de 1999, edição em que o goleirão Roger Noronha posou nu para a revista.

Depois desta polêmica e empréstimo à Lusa, Roger voltou ao São Paulo aonde passou mais quatro anos na reserva de Rogério Ceni. Em 2003, mais uma polêmica: Roger, que sempre foi bastante ligado e amigo de Rogério Ceni, poderia ter se envolvido em uma encrenca com o mesmo. A situação era a seguinte, Rogério Ceni estava machucado e o São Paulo iria enfrentar o arquirrival Corinthians no Parque São Jorge, com vários desfalques para ambos os lados; com Rogério Ceni machucado, Roger seria o titular na ocasião. O São Paulo ganhou por 2×1 o jogo, Roger jogou muito bem e defendeu uma bola nos acréscimos do segundo tempo que basicamente garantiu a vitória são-paulina, isto fez com que vários torcedores pedissem que ele fosse o novo titular no lugar de Rogério Ceni, em que Ceni ficou um pouco revoltado com isto e, segundo o próprio Roger, foi o único desentendimento entre ele e Rogério Ceni, que acabou tudo bem.

Roger pode dizer que já foi campeão de uma Copa Libertadores da América, em 2005, quando ele, pra variar, estava na reserva de Rogério Ceni. Ao passar a conquista da América do Sul em 2005, Roger deixou o São Paulo em busca de novos rumos, afinal o São Paulo havia recém-contratado o goleiro Bosco, que seria o novo reserva. Roger saiu do São Paulo e foi para o Santos, que estava tentando se reerguer depois de uma temporada ruim em 2005 com Saulo debaixo das metas do peixe; não que ele tivesse culpa, mas o goleiro Saulo ficou muito marcado com aquele 7×1 aplicado pelo Corinthians e era hora de mudanças. Entretanto, Roger, que já havia sido reserva de Fábio Costa no Vitória, seria reserva do mesmo mais uma vez no Santos, após Fábio Costa ter tido problemas com o coringão e ter retornado ao clube que atuava antes de ir ao Corinthians.

Roger mais uma vez pouco atuara por um clube, desta vez pelo Santos. Com isto, no final de 2007 já para 2008 ele voltou a jogar no Rio de Janeiro, iria atuar pelo Botafogo. Roger, já com 36 anos, poderia finalmente se tornar o goleiro titular de uma equipe, ainda mais no Botafogo, que estava a ter vários problemas com goleiros ruins, especialmente o titular Max, que falhava muito e não inspirava confiança como nenhum outro goleiro do elenco. Roger estava bem, começou como titular, mas logo na primeira partida, lesionou gravemente o ombro e teve de parar, lesão esta que fez com que Roger decidisse se aposentar por ali.

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Depois de ter se aposentado, Roger Noronha virou político: se tornou vereador em 2008, pela cidade natal dele, Cantagalo, pelo partido do Democratas (DEM) com o número 25.555; em 2012, Roger se candidatou à prefeito da cidade de Cantagalo pelo Partido Comunista do Brasil (PCdoB), disputou junto com Saulo Domingues (PT) e Fabio Alexandre (PDT), mas conseguiu apenas 16% dos votos válidos, perdendo para Saulo Domingues, que teve 79,48% dos votos válidos.

E esta foi a décima-terceira edição do Muralhas Lendárias aqui no Goleiro de Aluguel! Espero que vocês tenham gostado da abordagem da carreira do eterno reserva, Roger Noronha, e não se esqueça de acompanhar o quadro, o blog e o Goleiro de Aluguel nas redes sociais. Até sexta-feira que vem quando o Muralhas Lendárias retornará com mais um artigo abordando a carreira de outra muralha!

Roger Noronha comentando a carreira no programa “Os Donos da Bola”:

Defesas de Roger pelo Flamengo: