Um Herói Muito Além de Sevilha

A vida é cheia de regras e acontecimentos, muitas coisas exatas que são indiscutíveis, e com o futebol não é diferente. No futebol existem várias “regras” que são quase exatas, tais como: todo canhoto erra o pênalti, escanteio curto não funciona, jogador que sai agachado nas fotos é o que vai decidir a partida e a que mais se encaixa aos guarda-redes, pegar um pênalti é sempre muito bom para o goleiro, independente de como o jogador tenha batido a cobrança.

Antes de mais nada, como vocês notaram, nosso aplicativo saiu, o blog (assim como o Muralhas Lendárias) estão novamente ativos, o site e o blog estão totalmente reformulados como você já deve ter notado. Nosso aplicativo está disponível para iOS, que você confere clicando aqui e também para Android, que você confere clicando aqui. Agora ficou mais prático para os contratantes chamarem goleiros para as partidas e para as muralhas do Goleiro de Aluguel aceitarem as convocações!

A história de hoje é do “Herói de Sevilha”, Helmuth Duckadam, que realizou um feito inacreditável na história do futebol, um feito único que aconteceu mais precisamente na final da UEFA Champions League de 1985/1986, mas nós iremos tratar disto mais pra frente, quando chegarmos lá. Helmuth Duckadam nasceu em primeiro de abril de 1957, na cidade de Semlac, uma comuna em Arad, na Romênia, teve um começo bastante modesto na pequena comuna, inclusive pelo próprio momento político que a Romênia vivia (que também iremos tratar depois) e que talvez nunca tenha dado a Duckadam o real reconhecimento que ele merecesse.

Bom, como está na capa, este é agora o "Escudo" (logo) oficial do Muralhas Lendárias. O que achou?

Bom, como está na capa, este é agora o “Escudo” (logo) oficial do Muralhas Lendárias. O que achou?

Duckadam começou no futebol aos 15 anos idade no Semlecana Semlac, time da comuna aonde ele nasceu, depois foi para outro time de Arad, o CS Gloria Arad, até ir para o UTA Arad, em 1977, quando completou 18 anos e se tornou profissional. O primeiro clube profissional de Duckadam foi o Constructorul Arad, mas por lá durou apenas uma temporada, voltando para o UTA Arad para a temporada 1978/1979, time da comuna dele que disputava a Divizia A (primeira divisão romena) na altura.

O clube tinha passado por um recente passado glorioso, mas na temporada 1978/1979 amargurou a queda para a segunda divisão romena, após 34 partidas (onze vitórias, sete empates e dezesseis derrotas, 29 pontos somados, 45 gols marcados e 46 sofridos) o UTA Arad terminara em 17º lugar dentre 18 clubes e fora rebaixado. A segunda divisão romena era composta da seguinte maneira: 54 clubes divididos em três chaves com 18 equipes cada, a primeira colocada de cada chave seria promovida para a primeira divisão da temporada seguinte. O UTA Arad de Helmuth Duckadam terminou em terceiro lugar na Chave III, logo iria jogar a segunda divisão por mais uma temporada.

Na temporada seguinte, o UTA Arad caiu, mais uma vez, na Chave III e conseguiu o acesso para a Divizia A até com certa folga, após terminar em primeiro lugar no grupo com 22 vitórias, quatro empates e oito derrotas, somando 48 pontos contra 43 do segundo colocado (Olimpia Satu-Mare) e o time de Duckadam iria voltar para a primeira divisão na jornada seguinte, uma temporada que iria mudar os rumos da carreira de Helmuth Duckadam para melhor!

 

De volta a primeira divisão romena na temporada 1981/1982, o UTA Arad, mais uma vez não iria bem, viria a terminar novamente em 17º lugar e ser novamente rebaixado para a segunda divisão, mas Duckadam atuara muito bem nas partidas pelo clube, chegando a ser convocado para a seleção romena principal por duas vezes (as únicas da carreira). Com isto, o Steaua Bucareste, clube mais expressivo da Romênia, se interessou pelo goleirão e decidiu contratá-lo para a temporada 1982/1983, para ajudar o clube a voltar a ganhar títulos.

Na primeira temporada pelo Steaua Bucareste, Duckadam teve que apenas se contentar com um quinto lugar em uma temporada muito abaixo do esperado. Na jornada de 1983/1984, o Steaua ficara mais forte com a chegada do treinador Emerich Jenei, mas o título de Duckadam com o Steaua Bucareste bateu na trave, terminaram em segundo lugar com apenas dois pontos de diferença para o campeão, o maior rival Dinamo Bucareste; se tivessem vencido um jogo a mais, teriam sido os grandes campeões. Nesta temporada, Duckadam com o Steaua obtiveram a defesa menos vazada, sofrendo 23 gols em 34 jogos. Com esta colocação, o Steaua iria disputar a Copa dos Campeões Europeia, mas já iriam cair na primeira fase frente ao Roma, perdendo a ida na Itália por 1×0 e empatando a volta sem gols.

Na temporada 1984/1985, finalmente o título nacional a Duckadam e ao Steaua viria, que ganhou o campeonato com mais vitórias (23 vitórias em 34 jogos), melhor ataque com 71 gols feitos e a melhor defesa, que sofreu 24 gols. Com o título nacional, o Steaua se classificou para a European Cup de 1985/1986 (a European Cup é a atual UEFA Champions League). Na primeira fase, o Steaua passou pelo Vejle, da Dinamarca, após empatar fora de casa em 1×1 e vencer em casa por 4×1. Na segunda fase do torneio, as vítimas do Steaua foram o Budapest Honvéd da Hungria, após perderem fora de casa por 1×0, venceram a volta por 4×1 para passar as quartas-de-final da European Cup.

O Steaua iria passar pelo Kuusysi, da Finlândia, após empatar sem gols a ida em casa e vencer fora de casa por 1×0. As semifinais estavam a vista, seriam contra o Anderlecht da Bélgica, adversário que vinha cheio de moral por ter eliminado uma das equipes favoritas ao título, o Bayern de Munique, da Alemanha. A outra chave da semifinal continha o time favorito ao título, o Barcelona da Espanha, que havia eliminado outra equipe favorita, a Juventus da Itália, que contava com Michel Platini no elenco. O Steaua chegara a final da European Cup após perder a ida na Bélgica por 1×0 e vencer a volta em casa por 3×0 e iria enfrentar o Barcelona na finalíssima, o palco da final seria a cidade de Sevilha, na Espanha, o estádio do próprio Sevilla.

A final se cantava da seguinte maneira: casa cheia, torcida em peso para o Barcelona e goleada do clube catalão. Quase tudo isto se cumpriu, o estádio estava lotado, quase todos os torcedores eram do Barcelona (apenas alguns pequenos grupos eram torcedores do Steaua), mas o Barcelona não goleou, brilharia a estrela do goleirão Helmuth Duckadam. A partida começou, a defesa do Steaua estava sólida e teve-se um jogo de igual pra igual, que terminou empatado sem gols; seguiu-se para prorrogação, prosseguiu-se o 0x0, a decisão de qual era a melhor equipe da Europa de 1986 seria decidida nas penalidades máximas.

O Steaua abriu a série com Majearu, mas Urruti, goleiro do Barcelona, defendeu. O Barcelona partiu para a primeira cobrança com Alexanko, que viria a parar em Duckadam. Na segunda série de pênaltis, Bölöni e Pedraza cobraram para Steaua e Barcelona respectivamente e mais uma vez os goleiros defenderam as cobranças! Parecia que aquelas redes não seriam balançadas nunca, mas na terceira série de pênaltis, Lăcătuş abriu o placar para o Steaua em uma bela cobrança, enquanto Alonso iria desperdiçar a terceira cobrança do Barcelona, mais uma vez, Duckadam defendera o pênalti. Balint cobrou a quarta cobrança do Steaua e fez, jogando toda a responsabilidade para o Barcelona, mais precisamente para Marcos, que tinha de converter a cobrança para manter as esperanças de título ao Barcelona vivas… Acredite, ele bateu e Duckadam defendeu de novo! Defendeu todas as quatro cobranças do Barcelona, um feito único na história do futebol que deu o título inédito ao Steaua Bucareste, não só inédito ao Steaua, como ao leste europeu inteiro; nunca antes um time do leste europeu havia ganho a UEFA Champions League!

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Antes mesmo deste título, Duckadam, junto com o Steaua, havia saído bicampeão romeno e com muita folga, com 57 pontos frente a 48 do segundo colocado, tendo a melhor defesa da competição, com 25 gols sofridos ao todo.

A volta para a terra natal foi incrível! Mais de 30 mil torcedores receberam os campeões em Bucareste, foi decretado até feriado nacional no país, algo jamais visto na Romênia! Após o fim desta temporada, Duckadam foi forçado a encerrar a carreira precocemente, com apenas 27 anos, devido a um raro problema sanguíneo que ele adquiriu. Em 1989, Duckadam voltou aos gramados e atuou pelo Vagonul Arad até 1991, quando se aposentou definitivamente, mas, ainda sim, de maneira precoce, com apenas 32 anos.

Apesar deste incrível feito de defender quatro pênaltis na final da Champions, Duckadam nunca teve o reconhecimento merecido, muito se deve ao fechado governo socialista de Nicolae Ceauşescu, que deixou toda e qualquer instituição romena como uma instituição política, e com o futebol não fora diferente: como quase em todos os países do bloco soviético, cada organização esportiva foi associada a um órgão governamental; o Steaua foi associado ao Exército Romeno, inclusive o próprio estádio do clube, o Stadionul Ghencea, fora construído em uma base militar.

O próprio goleiro (e também lendário) Van Der Sar comentou este feito: “Foi um momento tocante para Helmuth Duckadam. Ele nem sempre recebeu o elogio que ele merecia. Aqui está um homem cujo heroísmo em Sevilha na final da European Cup deu à nação um dos seus momentos de maior orgulho na sua história futebolística, e ainda assim ele teve de viver uma grande parte de sua vida em anonimato, o empobrecimento e problemas de saúde”.

Em 25 de março de 2008 Duckadam foi condecorado pelo Presidente da Romênia, Traian Băsescu, com o mérito esportivo de segunda classe, por fazer parte na conquista da European Cup de 1985/1986. Dois anos mais tarde, em 11 de agosto, foi nomeado presidente do Steaua.

Helmuth Duckadam em 2011

Helmuth Duckadam em 2011

E esta foi a décima-sétima edição do Muralhas Lendárias aqui no Goleiro de Aluguel! Após uma breve pausa, voltamos abordando a carreira do “Herói de Sevilha”, o romeno Helmuth Duckadam, dono de um feito único na história do futebol. Semana que vem, o quadro volta abordando a carreira de outro goleiro lendário. Até semana que vem!

BARCELONA 0(0)x(2)0 STEAUA BUCARESTE – FINAL DA UEFA CHAMPIONS LEAGUE 1985/1986 (DECISÃO POR PÊNALTIS)

PS1: Uma coisa que é de se pensar e até ficar estarrecido é quando falam que Paris-Saint Germain ou Manchester City são times grandes, quando na verdade são apenas times com dinheiro e sem história. O próprio Chelsea não foge a regra e é tratado como “grande” por ter UEFA Champions League e ter dinheiro. Infelizmente, são dois pesos e duas medidas, afinal times como Aston Villa, Nottingham Forest e Steaua Bucareste também têm Champions, mas nem por isto são tratados como “grandes” e com o devido merecimento. Jamais deve-se confundir time endinheirado com time grande. O quadro voltou, está revitalizado, mas o apelo a favor do futebol popular, contra o futebol moderno elitizado e robotizado sempre estará presente aqui no “Muralhas Lendárias”.