Nem Sempre os Melhores se Saem Vitoriosos

Podem falar o que for, seja em tom sério ou não, Brasil e Argentina são as principais potências do futebol sul-americano, apesar de que Uruguai e Chile têm mostrado forças nos últimos anos. Durante a década de 90, a Argentina possuiu verdadeiros timaços que perduraram até metade da década passada e chegavam a botar medo e surpreender qualquer seleção do mundo, inclusive a nossa. Entretanto, enquanto nossa seleção canarinha arrematou vários títulos desde o tetra para cá, a Argentina vive uma seca de títulos que vem desde 1993, nesta época, passou vários excelente jogadores como Riquelme, Sorín, Samuel, Zanetti e Guillermo Barros Schelotto, assim como excelentes goleiros tais como Pato Abbondanzieri, Carlos Roa (já abordado aqui no Muralhas Lendárias) e Germán Burgos, talvez o principal goleiro desta excelente, mas fracassada geração argentina e que será abordado hoje aqui nesta coluna semanal.

Germán Adrián Ramón Burgos (ou simplesmente Germán Burgos, ou mais simples ainda, Burgos) nasceu em 16 de abril de 1969, na cidade de Mar Del Plata, localizada no centro-leste argentino e começou a carreira no Almagro de Florida, time da cidade aonde nasceu com 16 para 17 anos, por lá seguiu até os 19 anos, quando se transferiu para o Ferro Carril Oeste, clube aonde se profissionalizaria em 1989, com vinte anos de idade, rumo a uma grande e notável carreira. A estreia profissional de Germán Burgos com a camisa do Ferro Carril Oeste foi em uma partida válida pela 4ª rodada da Primera División de 1989/1990, contra o Newell’s Old Boys, fora de casa, com uma derrota por 1×0.

Nesta primeira temporada pelo Ferro Carril Oeste, Burgos conseguiu arrematar o sexto lugar, só não foram melhores pois o sistema de ataque era muito fraco, fez apenas 24 gols em 38 jogos, em compensação, a defesa foi a melhor do torneio junto com os campeões do River Plate, aonde Burgos foi um dos principais pilares para uma defesa sólida do time do Ferro Carril Oeste, que sofreu apenas 20 gols em 38 jogos daquela competição.

Na temporada seguinte, o campeonato argentino entrava em um novo formato que pendurou até 2014, o “Torneo Apertura” e o “Torneo Clausura”, sendo que o vencedor de cada torneio iria disputar uma finalíssima entre si. No Torneo Apertura de 1990, o Ferro de Burgos viria a terminar apenas em sexto lugar, enquanto no Torneo Clausura de 1991, viria a terminar apenas em décimo-sexto lugar, terminando na décima-segunda colocação geral, não se classificando para a Copa Libertadores da América, mas também não caiu de divisão, ficando na chamada “zona do agrião”.

Burgos em ação pelo Ferro Carril Oeste na temporada 1989/1990, em partida em casa que terminou empatada sem gols contra o Boca Juniors

Burgos em ação pelo Ferro Carril Oeste na temporada 1989/1990, em partida em casa que terminou empatada sem gols contra o Boca Juniors

Na temporada 1991/1992, mais do mesmo. No Apertura de 1991, o Ferro Carril Oeste só viria a terminar na décima colocação, enquanto no Clausura de 1992 viria a terminar em décimo-primeiro. Ou seja, mais uma vez o Ferro não disputou vaga para Libertadores, mas também não chegou nem perto do rebaixamento, terminando no meio da tabela.

Na temporada 1992/1993, o Ferro iria viver dois momentos distintos, mas que acabariam por terminar novamente no meio da tabela do campeonato argentino: no Apertura de 1992, o Ferro terminou em quarto lugar, apenas cinco pontos atrás do Boca Juniors, o campeão. O Ferro, neste Apertura, teve a defesa menos vazada, sofrendo apenas nove gols em dezenove jogos. Entretanto, o que se encaminhava para uma belíssima temporada do Ferro, que pudesse o garantir com uma vaga na Libertadores do ano seguinte, foi de mal a pior quando no Clausura desta temporada, o Ferro Carril Oeste viria a terminar apenas em décimo-sexto lugar, terminando assim, mais uma vez no meio da tabela na classificação geral desta temporada.

A temporada 1993/1994 seria a última de Burgos no Ferro Carril Oeste, em que, mais uma vez, o Ferro iria terminar no meio da tabela. Apesar disto, Burgos sempre manteve regularidade na titularidade e as boas atuações chamaram a atenção de uma grande equipe argentina, o gigante River Plate, para onde Burgos viria a se transferir na temporada 1994/1995 e começar a ganhar destaque no cenário do futebol. No River Plate, Burgos ganhara o apelido de “el mono” (que significa, “macaco”) por conta da aparência desajeitada dele.

Na primeira temporada pelo River, Burgos começou com tudo! No Torneo Apertura de 1994, Burgos teve atuações impressionantes juntos com todo o elenco do River Plate, atuou em todas as partidas do Apertura (19 jogos) e não perdeu uma partida sequer, sendo campeão daquela edição e tendo a defesa menos vazada junto com o Newell’s Old Boys, sofrendo 14 gols.

Entretanto, no Clausura de 1995, o River Plate viria apenas terminar em décimo lugar. Com isto, o River terminou em terceiro lugar na colocação geral e, por ter sido campeão do Torneo Apertura, garantiu vaga para a Libertadores de 1996. Ainda em 1995, o River participou da Libertadores e foi longe, chegou até a semifinal contra o Atlético Nacional da Colômbia em que, após perder a perder a ida fora de casa por 1×0 (com gol de falta do lendário goleiro René Higuita), o River devolvera o placar na volta em casa, mas iria perder nos pênaltis por 8×7. Neste mesmo ano de 1995, o River iria disputar o Apertura da temporada 1995/1996 e terminou apenas em sétimo lugar, mas o ano de 1996 estaria cheio de glórias ao River Plate e a Burgos.

Ainda em 1995, Burgos iria fazer estreia na seleção argentina, inclusive em torneios internacionais, pois fora convocado como terceiro goleiro na Copa América de 1995 (mais que esperado que Burgos não tenha jogado jogo nenhum neste torneio). A Argentina chegou até às quartas-de-final daquela Copa América, quando fora eliminada pelo Brasil nos pênaltis, por 4×2 (o Brasil havia empatado o jogo quase aos 40 do segundo tempo, com Túlio Maravilha ajeitando a bla com o braço).

Na Libertadores de 1996, o River iria cair no Grupo 05, junto com os conterrâneos do San Lorenzo e os venezuelanos do Minervén e Caracas, e iriam passar de fase após vencer quatro partidas e empatar duas, terminando em primeiro lugar no grupo. Com isto, o River Plate foi para a fase final de mata-mata e iria enfrentar o Sporting Cristal nas oitavas, passando para as quartas-de-final após perder a ida no Peru por 2×1 e vencer a volta no Monumental de Núñez por 5×1. Nas quartas-de-final, o River iria eliminar o também argentino San Lorenzo, após vencer a ida fora de casa no Nuevo Gasometro por 2×1, um empate em um gol na volta em casa seria suficiente para classificar a equipe nas semifinais, fase em que o River eliminaria o Universidad de Chile após empatar a ida fora de casa em 2×2 e vencer a volta em casa por 1×0. A decisão seria contra o América de Cali, da Colômbia, e o título viria após perder a ida por 1×0, mas ganhar por 2×0 a volta em casa, com dois gols de Hernán Crespo. Podemos dizer que o primeiro título internacional de Burgos foi de maneira avassaladora, afinal o River teve a melhor campanha da fase de grupos e não baixou o nível em nenhum momento da competição, ajudando o River a levantar o caneco da Libertadores dez anos depois da primeira conquista. Entretanto, o River não conseguiria ser campeão mundial daquele ano, perdendo para a Juventus por 1×0 na decisão.

River Plate campeão da Libertadores de 1996, com Burgos trajando belo uniforme roxo

River Plate campeão da Libertadores de 1996, com Burgos trajando belo uniforme roxo

A temporada 1996/1997 de Burgos seria sensacional com a camisa do River Plate, afinal o River iria se sagrar campeão tanto do Torneo Apertura quanto do Clausura com bastante folga em ambas ocasiões, já garantindo vaga na Copa Libertadores de 1998. Entretanto, na Libertadores de 1997, o River foi um grande fiasco: na época, o atual campeão da Libertadores já entrava com vaga direta nas oitavas-de-final e fora logo nesta fase em que o River foi eliminado da Libertadores, ao empatar as duas partidas em um gol com os conterrâneos argentinos do Racing Club, mas perderam nos pênaltis por 5×3. Naquele ano de 1997, haveria Copa América, mas Burgos ficaria de fora.

Na Libertadores de 1998, o River iria cair no Grupo 05, junto com os conterrâneos do Colón e os peruanos do Sporting Cristal e Alianza Lima e iriam passar ao mata-mata final após terminar em primeiro lugar no grupo, vencendo cinco partidas e empatando uma, terminando invicto a primeira fase. Nas oitavas-de-final, contra o América, o River iria passar de fase após empatar em um gol no México e vencer em casa por 1×0. Nas quartas-de-final, um passeio sobre os também argentinos do Colón, vencendo a ida em casa por 2×1 e a volta no Estanislao López por 3×1, se classificando para as semifinais, fase aonde seriam eliminados para os futuros campeões, o Vascão! Após perderem a ida no Rio de Janeiro por 1×0, o River Plate empataria em casa em um gol com o Vasco da Gama e seria eliminado: o River saiu ganhando com gol de Sorín, mas Burgos sofreria aquele histórico gol de falta de Juninho Pernambucano quase “do meio da rua” aos 36 do segundo tempo e foram eliminados.

Neste mesmo ano de 1998, Burgos seria convocado pelo insensato Daniel Passarella, mas como segunda opção do também lendário Carlos Roa. Os argentinos chegaram até às oitavas-de-final daquela Copa do Mundo, quando foram eliminados para a Holanda ao perder de 2×1, sofrendo um gol de Dennis Bergkamp aos 45 do segundo tempo. Talvez se Daniel Passarella tivesse convocado Fernando Redondo e Claudio Caniggia a história pudesse ser outra para os argentinos naquela Copa do Mundo, mas Passarella os vetou porque… eles eram cabeludos e o insensato técnico não admitia jogadores com grandes madeixas na seleção, pois, segundo ele, grandes cabelos atrapalhavam. Inclusive Passarella convocou Gabriel Batistuta apenas porque este aceitou cortar os cabelos.

A temporada de 1998/1999 não traria títulos para Burgos, mas ao final daquela jornada, a carreira dele estaria marcada: pela primeira vez na carreira, Burgos participaria de um torneio internacional com a seleção argentina sendo o goleiro titular! E este torneio foi a Copa América de 1999. A Argentina iria cair no Grupo C, junto com Equador, Colômbia e Uruguai, e a argentina iria se classificar após vencer o Equador por 3×1, o Uruguai por 2×0 e perder para Colômbia por 3×0*, viriam a ser eliminados para o Brasil nas quartas-de-final após perder de virada por 2×1.

*Curiosidade: este jogo contra a Colômbia foi histórico. Antes da Colômbia abrir o placar, Palermo perdeu um pênalti, chutando no travessão. Então a Colômbia abriu o placar em cobrança de pênalti. Antes da Colômbia fazer o segundo, os colombianos perderam um pênalti com Burgos defendendo e Palermo desperdiçou mais um pênalti, desta vez chutando pra fora. Logo após, a Colômbia ampliou e fez o terceiro, mas antes do jogo terminar, a Argentina perdeu mais um pênalti, mais uma vez Palermo errou, chutando em cima do goleiro Calero. Um histórico jogo com cinco penalidades máximas e apenas uma convertida, sendo que o mesmo jogador errou três pênaltis. Talvez aquele mito-verdade de que “canhoto não sabe bater pênalti” esteja certo (afinal, Palermo era canhoteiro).

Burgos com o elenco argentino na Copa América de 1999, no jogo de estreia do torneio, contra o Equador

Burgos com o elenco argentino na Copa América de 1999, no jogo de estreia do torneio, contra o Equador

Após aquela Copa América, Burgos se transferiria do River Plate para o Mallorca  da Espanha, aonde dividiria posição com o conterrâneo argentino (e também lendário) Leo Franco. Burgos seria apenas reserva no Mallorca, muito se deve logo quando chegou ao time espanhol: em uma vitória fora de casa por 2×1 em cima do Espanyol em partida válida pela 12ª rodada da La Liga, Burgos agrediu o jogador adversário Manolo Serrano, pegando onze jogos de suspensão (o lance não havia sido visto pelo árbitro, mas foi pego pelas câmeras).

Por lá, Burgos atuou por duas temporadas e somou apenas doze jogos com o time de Mallorca. Na temporada 2001/2002, ele viria a se transferir para o Atlético de Madri, que hoje é um dos principais times da Espanha (a principal força depois de Barcelona e Real Madri), mas que, na altura, disputava a segunda divisão.

Houve Copa América em 2001, mas Burgos não participou. Ou melhor, a Argentina não participou. A Colômbia estava a enfrentar muitos problemas civis, sobretudo envolvendo as FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) e a Federação Argentina boicotou o torneio alegando falta de segurança, sendo substituída pela surpreendente Honduras (que eliminou o Brasil que tinha São Marcos no gol nas quartas-de-final).

Na primeira temporada pelo Atlético de Madri, Burgos já se sairia campeão da segunda divisão espanhola, somando 23 vitórias, dez empates e nove derrotas, campeão disparado com 79 pontos, sendo que os vices do Racing Santander conseguiram somar 71. No meio da temporada, Burgos iria participar da segunda Copa do Mundo da carreira e, mesmo usando a camisa 1, mais uma vez Burgos seria o reserva de Pablo Cavallero (que era terceira opção na Copa do Mundo de 1998, mas tomou a titularidade para si em 2002, deixando Burgos novamente na reserva). Burgos, mais uma vez, não atuou em nenhuma partida sequer de uma Copa do Mundo (nunca atuou, por sinal, sempre foi reserva). Burgos apenas fez parte do elenco de uma fiasquenta Argentina, que chegou como uma das favoritas ao título da Copa do Mundo de 2002, mas foi eliminada logo na primeira fase em um grupo com a Nigéria, Suécia e a Inglaterra de David Seaman.

Burgos tentando consolar o zagueiro Mauricio Pochettino após empate em 1x1 com a Suécia que sacramentou a eliminação da Argentina logo na primeira fase da Copa do Mundo de 2002

Burgos tentando consolar o zagueiro Mauricio Pochettino após empate em 1×1 com a Suécia que sacramentou a eliminação da Argentina logo na primeira fase da Copa do Mundo de 2002

Depois daquela Copa do Mundo, Burgos disse que já estava velho para defender a seleção argentina e clubes, anunciando aposentadoria da seleção argentina.

Na temporada 2002/2003, o Atlético de Madri chegou até as quartas-de-final da Copa Del Rey e na La Liga, se manteve na primeira divisão, ao terminar em décimo-segundo lugar, uma campanha ruim que não trouxe grandes resultados, mas ao menos manteve o time na primeira divisão espanhola. Na La Liga desta temporada, Burgos protagonizou um lance bizarro: em partida válida pela 18ª rodada, no clássico contra o Real Madri realizado no Santiago Bernabéu, Burgos defendeu um pênalti do português Luís Figo… com o nariz! Sim, Burgos caiu, adivinhou o canto, mas não teve tempo de colocar a mão na bola na bicuda de Luís Figo e acabou defendendo com a face. A bolada no nariz rendeu uma “bela” hemorragia em Burgos e um forte sangramento, mas Burgos, raçudo, continuou até o final do jogo, que acabou empatado em 2×2.

A temporada 2003/2004 marcou a saída do técnico Luis Aragonés do Atlético de Madri para a entrada de Gregorio Manzano. O novo técnico preferiu dar a titularidade do gol colchonero ao goleiro Juanma (por um tempo, a titularidade ficou também com Sergio Aragoneses, que não correspondeu como Juanma, que, mesmo assim, acabou recuperando a titularidade), enquanto Burgos foi titular do Atlético de Madri apenas na Copa Del Rey. O Atlético de Madri chegou a terminar em sétimo lugar na La Liga, enquanto na Copa Del Rey, o Atlético de Madri chegou até às quartas-de-final, quando foi eliminado pelo Sevilla.

A retirada da titularidade de Burgos do Atlético de Madri não se deve a alguma má atuação dele (afinal ele era ídolo da torcida), e sim porque Burgos foi diagnosticado com câncer em meados de 2003, Burgos chegou a contar que pediu aos médicos para operá-lo na segunda-feira, porque no domingo tinha jogo. Entre tantas histórias, Burgos foi operado para a retirada de um tumor no rim, a cirurgia foi bem sucedida e Burgos foi tratado com êxito do câncer. Este câncer não foi suficiente para fazer Burgos se aposentar na altura, não parou com o futebol… nem com o cigarro: a principal causa do câncer de Burgos foi o fato de ele ser fumante e ele não havia conseguido parar de fumar mesmo depois do câncer, ainda que o cigarro tenha lhe causado trauma, câncer, 35 pontos e cicatrizes no corpo, Burgos não conseguiu largar do vício.

Após a temporada de 2003/2004 se encerrar, Burgos também encerrou a carreira, aos 34 anos de idade, uma idade até que jovem para um goleiro. Depois de aposentado dos gramados, Burgos fundou uma banda de rock chamada “The Garb” e voltou a trabalhar com o futebol anos depois: em 2010 ele treinou o CRD Carabanchel, time de Madri, e depois virou assistente técnico de Diego Simeone no Catania, depois no Racing Santander e no Atlético de Madri, time aonde ambos jogaram juntos e exercem funções até hoje.

Burgos no Atlético de Madri com auxílios médicos, que ajudavam a estancar a hemorragia no nariz após ter defendido um pênalti de Luís Figo com a face

Burgos no Atlético de Madri com auxílios médicos, que ajudavam a estancar a hemorragia no nariz após ter defendido um pênalti de Luís Figo com a face, conforme retratado neste artigo

E esta foi a vigésima-sétima edição do “Muralhas Lendárias” aqui no blog do Goleiro de Aluguel! Espero que vocês tenham gostado da abordagem da carreira de Germán Burgos, goleiro argentino que marcou a passada excelente e fracassada geração argentina, mas que fechou o gol e entrou em nossas memórias como um goleirão desajeitado. Semana que vem, o quadro volta abordando a carreira de mais um lendário goleiro. Até sexta que vem!

GRANDES LANCES DE BURGOS NO RIVER PLATE:

DEFESAS DE BURGOS PELO ATLÉTICO DE MADRI: