Muita História em Pouco Tempo

A “profissão goleiro” já é ingrata e perseguida por natureza, pode se fazer grandes defesas sempre, mas basta uma falha para ser lembrado pra sempre e ser crucificado pela crítica, mas o escolhido de hoje sentiu na pele algo muito além. O goleiro de hoje talvez nunca tenha sido o principal da posição no cenário nacional, muito por conta de grande perseguição da mídia brasileira sobre ele, os críticos daqui não eram muito fã dele. Estamos hoje voltando a falar de um goleiro brasileiro aqui no “Muralhas Lendárias” e o escolhido da vez é Doni.

Doniéber Alexander Marangon, ou pura e simplesmente “Doni” nasceu em Jundiaí, interior de São Paulo, no dia 22 de outubro de 1979 e começou na base de um time da cidade, o Paulista de Jundiaí, que nos anos 2000 iria figurar em destaque no cenário nacional ao ser vice-campeão paulista em 2004 (perdendo para o São Caetano de Silvio Luiz) e ao ser campeão da Copa do Brasil em 2005 sobre o Fluminense. Na base, Doni passou pelo Paulista, chegou a integrar a base do Corinthians, mas iria terminar tudo no Botafogo de Ribeirão Preto, entrou em 1994, mas iria se profissionalizar só em 1999, já com 20 anos incompletos.

Pelo Botafogo de Ribeirão Preto, Doni, com 22 anos, iria se destacar bastante no Campeonato Paulista de 2001, torneio em que o Botafogo iria terminar em quarto lugar na primeira fase do Paulistão, a última vaga para o mata-mata final, tirando a vaga de grandes times como São Caetano (que era o atual vice-campeão brasileiro), São Paulo e Palmeiras. Nas semifinais, contra a Ponte Preta, o Botafogo iria vencer a ida em casa por 2×1 e empatar em três gols a volta no Moisés Lucarelli para se classificar à final do Paulistão, mas o título não veio e iria ficar com o Corinthians, após o coringão vencer por 3×0 a ida fora de casa, um empate sem gols na volta fora suficiente para trazer o 24º título de campeão estadual ao Corinthians.

Doni atuando pelo Botafogo de Ribeirão Preto no início da carreira

Doni atuando pelo Botafogo de Ribeirão Preto no início da carreira

Apesar de não ter sido campeão, Doni sempre foi muito seguro debaixo das traves, fazendo grandes defesas e até defendendo alguns pênaltis, ganhando o troféu de revelação do Campeonato Paulista de 2001. Como é de se esperar, bons jogadores de times interioranos e/ou de menor expressão saem facilmente destes clubes para rumar a destinos maiores. Por exemplo, quando um jogador vai muito bem no Brasil de Pelotas ou no Juventude, facilmente o Grêmio ou o Internacional adquire este jogador em seguida; da mesma forma que se um jogador vai muito bem no Bangu ou no Madureira, é fácil para o Flamengo ou Vasco da Gama comprar este jogador em seguida. Com Doni não foi diferente, da mesma forma que ele estava indo muito bem no Botafogo de Ribeirão Preto, foi fácil para o Corinthians vir e contratá-lo após o término dos estaduais e começo do Brasileirão.

No começo, Doni foi reserva de Maurício, “prata da casa” e “eterno reserva” do Corinthians. Após o Corinthians ter chego na final da Copa do Brasil, mas ter perdido a mesma em casa para o Grêmio, o goleiro Maurício fora vendido ao América de Minas Gerais, sobrando assim, a titularidade para Doni. No Brasileirão de 2001, o Corinthians não foi muito bem, venceu nove, empatou sete e perdeu onze nos 27 jogos da primeira fase, fez 46 gols e levou 45, terminando apenas na 18ª colocação e não se classificando para o mata-mata.

Em 2002, o Corinthians iria ganhar o Torneio Rio-São Paulo, mas com Doni na reserva de Dida, recém-voltado da Europa e não iria ser campeão do Paulistão daquele ano, sendo eliminado nas semifinais para o Ituano (o Campeonato Paulista de 2002 foi diferente, o “Campeonato Paulista” fora disputado sem os chamados times grandes, que na altura eram: Corinthians, Guarani, Palmeiras, Paulista, Ponte Preta, Portuguesa, Santos, São Caetano e São Paulo; estes times não disputaram o torneio pois estavam jogando o Torneio Rio-São Paulo. Após o término da Rio-São Paulo, os três melhores colocados lá iriam para um quadrangular final junto com o campeão paulista – que fora o Ituano – e estes iriam disputar o chamado “Supercampeonato Paulista”, que finalmente definiria o campeão estadual, que neste ano de 2002, foi o São Paulo). Ainda na reserva de Dida, o Corinthians de Doni iria se sagrar campeão da Copa do Brasil de 2002, frente ao Brasiliense.

O grande e lendário Dida fora convocado para a Copa do Mundo de 2002 com a seleção brasileiro, como reserva de Marcos, e saiu-se campeão. Após aquela Copa do Mundo, Dida rumou ao AC Milan, para ser o novo titular no lugar de Abbiati e pela titularidade do rossonero seguiria por quase dez anos. Com isto, Doni seria o novo titular das metas corinthianas. Após ter conquistado o Torneio Rio-São Paulo e a Copa do Brasil na reserva de Dida, Doni chegou muito perto de um título como titular do Corinthians ainda em 2002.

O Corinthians iria terminar em terceiro lugar na primeira fase do Campeonato Brasileiro de 2002, somando doze vitórias, sete empates e seis derrotas, com 37 gols marcados e 35 sofridos. Nas quartas-de-final, iriam jogar contra o Atlético Mineiro e passariam de fase após vencer a ida em casa por 6×2 e a vencer a volta fora de casa por 2×1. Nas semifinais, contra o Fluminense, após perder a ida fora de casa por 1×0, iriam se classificar após vencer por 3×2 em casa, se classificando à final por terem a melhor campanha. Na final, contra o Santos, o Corinthians perdeu a primeira partida fora de casa por 2×0. Na volta, no Morumbi (que em termos seria em casa), o Santos iria sair ganhando de pênalti, com Robinho abrindo placar, o Corinthians iria virar e chegar ao 2×1 aos 39 minutos do segundo tempo, viria com tudo pra cima pois precisava de um gol para ser campeão, mas se expuseram demais, o Santos empatou e virou em dois contra-ataques, vencendo por 3×2 em uma partida histórica que Robinho só faltou fazer chover, e o Corinthians de Doni saiu-se vice-campeão.

Este foi o último Brasileirão na era de mata-mata, a partir de 2003 piorou para os pontos corridos. Podemos dizer que o Brasileirão de 2002 foi primordial para isto, pois o Santos se classificou em oitavo (última vaga para a fase de mata-mata) e conseguiu a vaga apenas na última rodada, se classificando apenas por ter saldo melhor que o do Cruzeiro. Aconteceu que o Santos foi eliminando todos e sagrou-se campeão. Com a justificativa de que o mata-mata não prioriza quem tem a melhor campanha, mudou-se o sistema para pontos corridos, mas perdeu-se em emoção no campeonato, afinal, em mata-mata, “cada jogo é uma final”.

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No Campeonato Paulista de 2003, o Corinthians caiu no Grupo 03, junto com o São Caetano, América de São Paulo, Portuguesa, União São João, Botafogo de Ribeirão Preto e Marília e passou de fase após terminar em segundo no grupo, vencendo quatro partidas, empatando uma e perdendo outra. Na segunda fase, eliminaria o União Barbarense, vencendo-os por 2×1 para rumar às semifinais contra o Palmeiras e iriam chegar à finalíssima após empatar a ida em 2×2 e vencer por 4×2 no Pacaembu. Na final, contra o São Paulo, vitória na ida e na volta por 3×2, que daria o primeiro título de Doni no Corinthians sendo o goleiro titular.

Na Libertadores daquele ano, o Corinthians faria uma bela fase de grupos: caiu no Grupo 08 com o Cruz Azul (México), Fénix (Uruguai) e The Strongest (Bolívia) e iria vencer cinco partidas e perder uma, tendo a melhor campanha da fase de grupos entre todos os times. Porém, iriam ser eliminados logo nas oitavas-de-final para o River Plate, após perder a ida e volta por 2×1. No Brasileirão, o primeiro da era dos pontos corridos, o Corinthians iria terminar apenas em 15º lugar dentre 24 equipes; apesar da má colocação, Doni jogou muito bem, e esteve cotado para ser vencedor da “Bola de Prata” da Revista Placar, entretanto, em uma partida contra o Santos, Doni agrediu o jogador Fabiano, resultando em punição e jogos afastados, com isto o prêmio acabou indo para o também lendário Rogério Ceni, do rival São Paulo.

Entre 2004 e 2005, Doni teve breves passagens entre Santos, Cruzeiro e Juventude (respectivamente). No clube gaúcho, Doni conheceu o zagueiro Antônio Carlos Zago, que foi o principal percussor da ida de Doni para o AS Roma, clube aonde ficaria mais conhecido e faria a carreira. Na primeira temporada, a Roma terminou em segundo, atrás da Internazionale. Entretanto, nesta temporada fora descoberto um esquema de manipulação de resultados envolvendo a Juventus, o Milan, a Fiorentina e a Lazio. A equipe campeã da temporada 2004/2005 foi a Juventus, mas o título fora revogado e a mesma Juve era pra ter sido a campeã na temporada 2005/2006, mas com este esquema, a Juve (principal beneficiada e articuladora desta corrupção) perdeu todos os pontos e fora rebaixada à segunda divisão. Milan, Lazio e Juve apenas perderam pontos e mandos de campo.

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Na temporada 2006/2007, o Roma mais uma vez iria ser vice da Serie A, mais uma vez para a Internazionale, que venceu com folga. Nesta temporada, pela primeira vez na carreira, Doni iria disputar uma UEFA Champions League, o Roma iria cair no Grupo D, junto com Valência, Shakhtar Donetsk e Olympiacos, e iria se classificar para o mata-mata após vencer três partidas, empatar uma e perder duas, terminando em segundo lugar na chave. Nas oitavas-de-final, contra o Lyon, o Roma iria se classificar após empatar a ida sem gols e vencer a volta por 2×0. Iriam cair nas quartas-de-final, para o Manchester United, após vencer a ida em casa por 2×1, iriam tomar uma sova por 7×1 do time inglês e seriam eliminados. Apesar de tudo, esta temporada não passou em branco para Doni, que conquistou o primeiro título com a Roma, a Coppa Italia: a Roma eliminou o Triestina nas oitavas-de-final, após vencer a ida fora de casa por 2×1 e em casa por 2×0. Nas quartas-de-final, eliminou o Parma, após vencer a ida em casa por 2×1 e empatar em dois gols a volta. Nas semifinais eliminariam o Milan, após empatar em 2×2 a ida no San Siro e vencer por 3×1 em casa. A final fora contra a Internazionale, em que o título viria após a Roma vencer a ida no Stadio Olimpico di Roma por incríveis 6×2 e perder fora de casa por 2×1, sendo campeã.

No meio do ano de 2007, um marco na carreira de Doni: a estreia dele na Seleção Brasileira em um amistoso contra a Turquia, que terminou empatado sem gols. O segundo jogo de Doni pela seleção brasileira, já seria na Copa América daquele ano, sediada na Venezuela. O Brasil caiu no Grupo B, junto com México, Chile e Equador; o Brasil iria perder por 2×0 para o México na estreia, mas iria vencer o Chile por 3×0 e o Equador por 1×0 para se classificar de fase, ficando em segundo lugar no grupo. Nas quartas-de-final, outro duelo com o Chile, que terminou em um chocolate brasileiro por 6×1. Nas semifinais, sufoco! Após empatar em 2×2 com o Uruguai, a decisão foi nos pênaltis, e o Brasil venceria por 5×4 para se classificar, sendo que Doni defendeu duas cobranças, a primeira dos uruguaios (cobrada por Diego Forlán) e a decisiva (cobrada por Diego Lugano). A final foi contra a Argentina, que estava com o time principal, e o Brasil, que não era o favorito, se sagrou campeão após golear os hermanos por 3×0. Este foi o primeiro título de Doni com a seleção brasileira principal, e como o goleiro titular!

Elenco brasileiro campeão da Copa América de 2007. Foto oficial antes da final contra a Argentina

Elenco brasileiro campeão da Copa América de 2007. Foto oficial antes da final contra a Argentina

Após a Copa América, Doni também iria se sagrar campeão da Supercoppa Italiana de 2007 (torneio disputado entre o campeão da Serie A e o da Coppa Italia em partida única), após vencer a Internazionale pelo placar mínimo. A temporada 2007/2008 seria muito semelhante à anterior para Doni e para a Roma por vários motivos: primeiro que a Roma iria ser mais uma vez vice-campeã da Serie A, perdendo mais uma vez para a Internazionale; segundo pela eliminação nas quartas-de-final da UEFA Champions League 2007/2008, e mais uma vez eliminados para o Manchester United e, pra encerrar as coincidências, a Roma conquistaria o bicampeonato da Coppa Italia, vencendo a Internazionale mais uma vez na final (vitória por 2×1, a partir desta temporada, a final seria decidido em jogo único). Entretanto, não conseguiram repetir o bicampeonato da Supercoppa Italiana em 2008, pois, após empatar em 2×2, perderiam por 6×5 nos pênaltis para a Inter.

Em 2009, Doni teve uma contusão no joelho e ficou impedido de participar da Copa das Confederações de 2009 (o Brasil iria se sair campeão). Após recuperar-se, Doni foi convocado para amistosos da seleção brasileira contra o Omã e a Inglaterra, entretanto, a Roma pediu para que ele recusasse a convocação, mas Doni nem ligou e foi mesmo assim. Com este desentendimento, Doni passou a ser reserva no Roma. Apesar disto, seria convocado para a Copa do Mundo de 2010, como reserva de Júlio César, e Dunga lembrou este episódio na convocação, dizendo: “O Doni só está na reserva da Roma, porque, no amistoso contra a Inglaterra quando eu o convoquei, a Roma pediu para ele não ir, mas ele por patriotismo e paixão, foi para a Seleção, como eu poderia deixar ele de fora da lista?”. Apesar disto, Doni não jogou nenhuma partida naquela Copa do Mundo e o Brasil seria eliminado nas quartas-de-final, para a Holanda.

Em 2011, Doni voltou a ser titular da Roma com a chegada do técnico Vicenzo Montella, mas durou pouco tempo de novo por lá, pois no meio daquele ano, Doni se transferiu para o Liverpool, da Inglaterra. Entretanto, por lá, Doni sofreu com uma arritmia cardíaca (que já havia sido descoberta em 2004, quando estava no Santos, mas no Liverpool a situação saiu do controle); com isto, Doni jogou apenas quatro partidas no Liverpool em um ano e meio pelo time inglês. Em janeiro de 2013, Doni reincidiu o contrato com os reds e ficou livre no mercado. Ele iria voltar a jogar no Brasil, no Botafogo de Ribeirão Preto, até assinou contrato, mas esta arritmia cardíaca não melhorou e Doni foi aconselhado a abandonar o futebol, nem reestreando pelo Botafogo, sendo forçado a encerrar a carreira com 33 anos.

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Doni atuando pelo Liverpool em partida contra o Blackburn Rovers

E esta foi a 23ª edição do “Muralhas Lendárias” aqui no blog do Goleiro de Aluguel! Espero que vocês tenham gostado da abordagem da carreira do Doni, goleiro brasileiro que fez história no Roma e fez alguns bons jogos pela seleção brasileira, talvez senão fosse a lesão citada neste artigo ou até mesmo a boa fase de Júlio César juntamente com a Internazionale ele pudesse ser goleiro da seleção por mais tempo, talvez também por conta da mídia brasileira sempre crucificar Doni, ou também senão fosse a arritmia cardíaca ele pudesse ter uma carreira maior em clubes e na própria seleção brasileira. Sem mais delongas, semana que vem o quadro volta abordando a carreira de mais um goleiro lendário. Até semana que vem!

GRANDES DEFESAS DE DONI:

BRASIL 2(5)X(4)2 URUGUAI (SEMIFINAIS DA COPA AMÉRICA 2007):