Atacantes Podem Ser Parados, uma Torcida Não

Tem algo mais saudável e engraçado no futebol que provocações e zueiras? Eu creio que não, isto é algo que faz parte do futebol, algo que torcedores tem de saber lidar, mas principalmente os jogadores, que estão lá dentro do campo e com uma torcida inteira xingando até a oitava geração dele. Goleiro talvez seja o que mais se ferra neste quesito, afinal a torcida que fica atrás do gol tem um “prato cheio” para descontar toda a raiva da semana em alguém, e este alguém é o goleiro. Ou seja, a “profissão goleiro” é ingrata em todos os sentidos.

Deixando tudo o que nós já estamos mais carecas que o São Marcos de saber, o Muralhas Lendárias pode ser dito que será dividido em duas partes, a primeira, hoje, estará abordando a carreira de Ricardo Pinto, que, enquanto goleiro do Atlético Paranaense, sofreu um incidente com a torcida do tricolor carioca que basicamente acabou com a carreira dele. Semana que vem, nós iremos abordar a carreira de um lendário goleiro que substituiu Ricardo Pinto após a saída dele do furacão.

Ricardo Pinto nasceu em 23 de janeiro de 1965, na cidade capixaba de Cachoeiro de Itapemirim, e começaria a carreira em 1982 na Associação Desportiva Ferroviária, clube da região metropolitana da capital do Espírito Santo, Vitória. Por lá, Ricardo ficou dois anos, até se transferir para a base do Fluminense.

Em 1986, ainda na base do Fluminense, Ricardo Pinto conquistou algo que nenhum outro goleiro brasileiro abordado aqui no “Muralhas Lendárias” conquistou: a Copa São Paulo de Futebol Júnior. O Fluminense caiu no Grupo F do torneio junto com o Guapira, Palmeiras e Santa Cruz e iriam passar de fase após perder na estreia para o Santa Cruz por 2×0 e vencer do Guapira por 2×1 e do Palmeiras por 1×0, terminando em segundo lugar na chave, se classificando às oitavas-de-final. Nas oitavas, o tricolor eliminou o Santo André ao vencê-los por 1×0, venceram o Bangu nas quartas-de-final ao ganhar dos conterrâneos de estado por 2×0, venceram o América de São Paulo por 1×0 nas semifinais e na finalíssima venceram a Ponte Preta por 2×0 no tradicionalíssimo estádio do Pacaembu para se sagrar os campeões daquela Copinha. Por sinal, o Fluminense foi o primeiro clube a conquistar a Copinha por quatro vezes (atualmente, o Fluminense tem cinco títulos da Copa São Paulo de Futebol Júnior, perdendo apenas para o Corinthians, que detém dez títulos, o último conquistado dois dias antes da publicação deste artigo). Em 1987, Ricardo Pinto se profissionalizaria como goleiro.

Pena que hoje a Copinha pra pouco serve, nos últimos anos a Federação Paulista de Futebol só quer saber em vender (a última coisa que as federações de futebol do Brasil querem é futebol, eles só querem saber de vender e arranjar patrocínio), a Copa São Paulo se perdeu nos formatos e tamanhos, cada ano que passa o regulamento fica mais ridículo, pois só querem colocar times a fim de vender, deixando a qualidade do torneio pra escanteio. A Copinha, que antes era a maior vitrine de jogadores do Brasil, hoje apenas transforma jogadores em produtos, pouco se vê hoje jogadores que saem da Copinha e despontam no cenário nacional (como Djalminha, Júnior Baiano, Fred, Edu e o goleiro Dida no passado), o empresariado simplesmente tomou conta de tudo, aonde os próprios empresários montam o time para vender os jogadores pra fora depois. Enquanto antes os times que jogavam a Copa São Paulo utilizavam como base para o ano seguinte ou até no mesmo ano, hoje é um caso ou outro que se vê de jogadores que jogam a Copinha por um time e despontam no elenco principal em seguida; recentemente, eu só consigo me lembrar do Felipe Vizeu no Flamengo em 2016 (e olhem que o Flamengo foi campeão nesta edição e o Felipe Vizeu pouco atuou).

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Elenco do Fluminense campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior em 1986

Elenco do Fluminense campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior em 1986

No polêmico ano de 1987 (que é do Sport ou do Flamengo?), Ricardo Pinto ficou na reserva do goleiro Paulo Vitor, tendo as oportunidades como titular no ano de 1988. No Campeonato Carioca de 1988, o Flamengo viria a conquistar a Taça Guanabara e o Vasco da Gama de Acácio da Taça Rio; entretanto tinha o terceiro turno, que reuniria os campeões das Taças Guanabara e Rio e mais os dois melhores na classificação geral. Como o Fluminense teve a melhor classificação geral depois de Vasco e Flamengo, se classificou ao último turno também junto com o Americano, mas o título não veio. No Brasileirão daquele ano, o Fluminense terminou o Grupo A do primeiro turno como líder e a segunda melhor colocação geral. No segundo turno, teve a pior campanha do mesmo grupo, mas já estava classificado para a fase de mata-mata, aonde enfrentariam os rivais vascaínos e passariam às semifinais após vencer a ida por 1×0 e vencer a volta por 3×2 (após terminar perdendo a volta por 2×1, o Fluminense virou o jogo na prorrogação). Nas semifinais, seriam eliminados para o Bahia, os futuros campeões, após empatar sem gols em casa e perder na Fonte Nova por 2×1.

Depois de dois anos com campanhas medianas e ruins, Ricardo Pinto só voltaria a ter campanhas de destaque no Flu em 1991, quando o Fluminense venceu a Taça Guanabara e terminou em quarto na Taça Rio, se classificando para a finalíssima contra o Flamengo, mas o título não viria: após empatar em um gol a ida, o Flu perdeu por 4×2 a volta e saiu-se vice. No Brasileirão daquele ano, o Fluminense terminou em terceiro lugar na primeira fase, se classificando para as semifinais, fase aonde foram eliminados para o Bragantino, após perderam a ida em casa por 1×0 e empatar fora de casa em um gol.

Após o Cariocão de 1992, Ricardo Pinto se transferiu para o Cerro Porteño, mas por lá não durou muito devido a concorrência primeiro com Goycochea (não, não é aquele que era goleiro da argentina, é outro Goychochea) e o também lendário Faryd Mondragón. No meio de 1993, Ricardo Pinto voltou para o Brasil para jogar o restante daquele ano no Americano. Em 1994, ele jogou no União São João de Araras até o meio do ano, quando se transferiu para o Corinthians na segunda metade de 1994 para ser reserva de Ronaldo Giovanelli e por lá ficou mais um ano, atuou em catorze partidas pelo Corinthians e sofreu dezesseis gols (dados encontrados nos registros corinthianos). Na reserva de Ronaldo Giovanelli, ele se consagrou campeão do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil, ambos os títulos em 1995.

No meio de 1995, Ricardo Pinto se transferiu para o Atlético Paranaense, que se encontrava na segundona nacional.

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Atlético Paranaense campeão da Série B de 1995

Atlético Paranaense campeão da Série B de 1995

A fórmula de disputa daquela segunda divisão era: 24 equipes divididas em quatro grupos de seis times, os quatro melhores de cada grupo passavam para uma nova fase, seriam divididos em quatro grupos com quatro times cada e os dois melhores de cada grupo seguiriam vivos. Restariam oito equipes, divididas em dois grupos com quatro times cada, os dois melhores de cada chave iriam para o grupo final, aonde os dois melhores deste grupo final ganhavam acesso para a primeira divisão do ano seguinte. O Atlético de Ricardo Pinto passou em primeiro lugar em todos os grupos, inclusive na fase final, se sagrando campeão daquela segundona. A equipe que terminou em segundo lugar naquele grupo e ganhou o acesso também, foram os rivais do Coritiba.

No Paranaense de 1996, o Atlético até estava bem, mas acabou pipocando no final do campeonato, deixando o título escapar, aonde o campeão seria o Paraná Clube. O Brasileirão de 1996 marcaria a carreira de Ricardo Pinto, pois, basicamente, seria o final da carreira dele. Na 20ª rodada daquele Brasileirão, o Atlético iria jogar fora de casa contra a primeira equipe da carreira profissional de Ricardo Pinto, o Fluminense, o Atlético estava no topo da tabela e próximo da classificação para a fase de mata-mata enquanto o Fluminense lutava para não cair para a Série B. O Fluminense saiu ganhando, mas o Atlético virou e chegou a fazer 3×1, o Fluminense ainda iria diminuir para 3×2.

Ricardo Pinto estava provocando a torcida do Fluminense (ele diz que não provocou a torcida rival durante o jogo). O Fluminense teve escanteio e o goleiro tricolor, o uruguaio Leo Percovich, subiu para tentar o gol, não conseguiu e ainda agrediu Ricardo Pinto, mas se safou apenas com o amarelo. Após o fim do jogo e vitória do Atlético Paranaense por 3×2, o furacão ficava na liderança do Brasileirão até aquele momento, enquanto o Flu estava em último lugar. Ricardo Pinto comemorou a vitória e batia no peito com todo fervor… Aconteceu que a torcida do Fluminense invadiu o campo e começou um verdadeiro show de cenas lamentáveis, a chinela cantou nas Laranjeiras e os torcedores estavam a agredir os jogadores do furacão, mas o principal alvo deles era um: Ricardo Pinto. O goleiro homenageado nesta edição desta coluna maravilhosa ainda saiu para tentar agredir alguns torcedores, mas ele acabou tomando uma sova, inclusive um torcedor estava com um radiotransmissor e espancou ele com o objeto. Ricardo Pinto saiu desacordado e carregado pelo goleiro reserva do Atlético, Ivan, e mais parte da comissão técnica atleticana, foi direto para o hospital um grande corte na cabeça. Ricardo Pinto ficou três meses parado e perdeu o restante daquele Brasileirão em virtude de uma lesão no cérebro causada pelo agressor.

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Ricardo Pinto com um corte na cabeça e saindo carregado das Laranjeiras pelo goleiro Ivan e parte da comissão técnica atleticana

Ricardo Pinto com um corte na cabeça e saindo carregado das Laranjeiras pelo goleiro Ivan e parte da comissão técnica atleticana

Ricardo Pinto foi substituído por Ivan ao restante daquele ano. Voltou a jogar em 1997, mas nunca mais no nível em que jogava, a carreira dele nunca mais foi a mesma e acabou perdendo a posição para… o goleiro que vamos abordar semana que vem (se é que você já não sabe qual goleiro é). Ricardo Pinto saiu do Atlético em 1998 e jogou depois (nesta ordem) no Inter de Limeira, no Iraty, teve uma breve passagem pelo Goiás (aonde disputou 21 partidas) e, ao final de 1999, aposentou-se no Joinville.

Depois de aposentar as luvas, Ricardo Pinto trabalhou como treinador das categorias de base do Atlético Paranaense e, em 2005, trabalhou como treinador de uma equipe principal, o Operário de Ponta Grossa. Trabalhou como treinador em vários times, sendo que o maior dos times que ele trabalhou foi o Paraná Clube, em 2011, mas por pouco tempo ficou e o Paraná fez uma campanha ridícula, sendo que ele foi um dos principais responsáveis para que o Paraná Clube fosse rebaixado no Campeonato Paranaense daquele ano. A última equipe que ele treinou, foi o Batatais, em 2013.

Em 2012, Ricardo Pinto se candidatou a vereador em Curitiba pelo PSC, mas não conseguiu 1500 votos e não foi eleito.

Após aquela confusão, Ricardo Pinto nunca mais voltou as Laranjeiras, ele explicou o porquê: “Já estavam jogando pilhas e outras coisas em mim antes de o jogo terminar. As pilhas vinham com tanta força que furavam o gramado. Se me acertassem, eu já teria ido para o hospital antes. Chamei o juiz, avisei, disse que não havia segurança e ele não me deu atenção. O goleiro do Flu (Leo Percovich), aquele louco, saiu da área dele para me agredir nos escanteios. Não revidei. Claro que retardei o jogo em alguns momentos, não sou bobo. Não queria que o Flu caísse, mas queria ganhar. Depois daquele dia, nunca mais pisei nas Laranjeiras. Não foi por falta de vontade ou oportunidade. Mas eu sabia que chegaria lá e só falariam da briga. Minha história no Flu é muito maior do que isto. Esse fato me deixa triste e até hoje não voltei ao Flu por causa disto”. Apesar de tudo, Ricardo Pinto afirma não guardar mágoas do agressor que atrapalhou a carreira dele.

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Ricardo Pinto como treinador do Paraná Clube

Ricardo Pinto como treinador do Paraná Clube

E esta foi a trigésima-primeira edição do “Muralhas Lendárias” aqui no Goleiro de Aluguel! Espero que vocês tenham gostado da abordagem da carreira de Ricardo Pinto. Semana que vem, o quadro volta abordando a carreira de mais um lendário goleiro, o goleiro que substituiu ele no Atlético Paranaense depois que ele se transferiu para o Inter de Limeira em 1998. Até semana que vem.

FLUMINENSE 2 x 3 ATLÉTICO PARANAENSE: 20ª RODADA DO BRASILEIRÃO 1996 – JOGO QUE MAIS MARCOU A CARREIRA DE RICARDO PINTO

GRANDES DEFESAS DE RICARDO PINTO: